O Touro Forte

Esse fim de semana foi o mais maluco da minha vida, uma verdadeira montanha russa de emoções. Por isso algumas coisas precisam ser ditas.

Sexta e sábado foram dois dos dias mais bonitos e divertidos desse ano. Tive a honra de ver pela primeira vez algumas bandas que eu queria ver faz tempo: Jonathan Tadeu, El Toro Fuerte, Fernando Motta e até mesmo a Salvage que é carioca mas que eu nunca tinha assistido. E a vibe dos shows foi animal! Jonathan e Fernando foi mega introspectivo, pra pensar na vida e nas dores do coração. E Salvage e El Toro foi catarse total, “gente dando voadora no teto, literalmente”, como bem definiu o Diego da El Toro. Fora a vibe antes/depois, bebendo e trocando ideia com a galera maneiríssima que colou no evento da Swing Cobra e com os parceiros de Canal Riff. Cheguei em casa 3 da manhã semi bêbado e muito feliz.

Aí vem a vida e apronta uma das suas. Recebo uma ligação bem cedo, e ao ver que era a minha mãe, já me preocupo em ser aquilo que eu temia. E era. Chorosa, ela comunica que meu avô morreu e pareceu que destamparam o ralo da felicidade em mim. Acho que receber um tiro deve ser meio assim… você tá lá cheio de vida e de repente acontece algo do nada e ela começa a se esvair de você.

Depois de um banho e voltando á consciência, a racionalidade me tomou. Meu avô sofreu por cerca de 3 anos da Doença de Parkinson, e foi doloroso demais ver esse processo. Um belo dia ele estava voltando da rua com as compras do mês no braço. No outro ele caiu no chão do banheiro. Alguns meses depois ele já não conseguia andar. Depois já não falava mais e mal conseguia se alimentar sozinho. E do começo do ano pra cá ele mal se mexia. E o que mais me doía era ver ele sentindo tudo aquilo, tentando botar pra fora o quanto estava sofrendo, mas se via aprisionado num corpo que já não o respondia mais.

Essa partida dele acabou sendo um descanso depois de tanto sofrimento e tanta luta. É aquele tipo de situação que, por mais duro que pareça, foi bom ter acontecido. E nossa, como ele lutou. Que homem forte. Eu não herdei isso dele não, quem dera se tivesse herdado. Eu sou bem frouxinho, amoleço com qualquer coisa. Meu avô era um touro forte.

E tem horas que até o mais cético dos céticos acredita nessas coisas de destino. Durante o show da El Toro, cerca de 10 horas antes do ocorrido, o João falou uma coisa que até pode ser considerado um clichê, mas a maneira que ele disse e a situação que eu me vi algumas horas depois fizeram aquilo vir à tona na hora em que eu recebi a fatídica notícia. “Não importa o quão fundo seja o poço que você está, você vai sair”. Acho que é o primeiro caso na história (pelo menos na minha vida) de terapia antecipada. Já recebi uma ajuda e palavras lindas antes mesmo de ficar mal. João, muito obrigado por isso. Eu não canso de ficar abismado do quanto a música mexe comigo e me faz bem em todas as situações.

A lição que fica é essa: o mundo é um lugar escroto, as vezes acontecem uma coisas muito difíceis de lidar, mas continuar vivendo e não se esconder é a única opção. A vida é maravilhosa. Por mais ruim que tudo esteja, é sempre um tempo lindo para se estar vivo. Nós só temos a possibilidade de ser feliz quando não estamos presos aos nossos problemas.

E especialmente essa semana será bem linda. Coisas importantíssimas do mestrado pra se resolver, trabalho de toda sexta com aquele povo divertidíssimo do Intellectus, set de DJ pra fazer no Transborda, 4 eventos para cobrir pro Riff e se tudo der certo uma session pra ajudar a gravar. E ver todas as pessoas lindas que gostam de mim e/ou do meu trabalho durante tudo isso é o que vai ser mais foda. Isso tudo veio na melhor hora, não vou nem ter tempo para ficar triste.

Um outro mestre meu me disse uma vez: “uma das principais funções de um/uma avô/avó é nos ensinar o que é perder uma pessoa que amamos logo cedo”. Foi duro rever essa lição, mas estou lidando com isso muito melhor do que foi da primeira e da segunda vez. Eu só fiquei com uma coisinha presa aqui que só podia dizer ao meu avô, mas vou deixar aqui para tirar de mim: obrigado por me ensinar sobre honestidade, força, vigor, determinação e cuidado com os seus sem ter dito uma só palavra sobre isso. Só com o exemplo. Você se foi, mas deixou várias pessoas melhores por aqui graças a seus atos, e eu tenho muito orgulho por ser uma delas. Obrigado por ser o elo que manteve nossa família unida por tanto tempo. Obrigado por ter me ensinado a gostar de café, essa bebida maravilhosa. Obrigado por me ensinar a gostar de futebol e até a torcer pelo Botafogo por uma época da minha vida. Obrigado por tudo, lutchador. Saudades eternas.

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