corpo branco

convoco a assumir a palavra, senhoras e senhores,o meu eu-liríco. segundos de ausência: ele não virá. ficou offline, indisponível às diversas chamadas sem caixa postal.

resta jorrar no espaço essas palavras parcas e tortuosas, nascidas do estômago, outras vezes mais abaixo, das vísceras. tímidas e imprecisas, do peito. duras e afiadas, quando saltam da garganta.

é preciso tomar notas. não deixar escapar nem uma nesga de ideia por aí. entre as capas de couro vermelho, atochadas entre a pauta, parecem desconfortáveis. aqui, correm mais soltas. criam movimento.

sibilam cantigas desconhecidas e, a minha revelia, reúnem-se em ciranda, não em linha. transportam-se como bem entendem e tomam seu lugar pouco a pouco. brigam entre si como irmãs da mesma idade.

qual a sua primeira memória? não lembro do primeiro parto. recordo o apartamento na 28, de fundos, sem luz do sol durante o dia, com uma janela muito baixa na sala por onde entramos certa vez que perdemos as chaves.

a tela da televisão de 20 polegadas, a estante da sala comprimida entre a parede e um sofá próximo demais para criar uma passagem que não incorra em intimidade indevida entre os transeuntes.

o jogo de futebol, com pequenos homens correndo de branco e preto (ou era amarelo e azul, vermelho e preto?). no canto, à direita, em letrinhas brancas com contorno preto: vivo. a primeira palavra.

Hymeneus Travestido Assistindo uma Dança em Honra a Príapo, de Poussin: brecha para participar

no início, era o logus. e quando o verbo se fez carne — logo, vivo — tratou de descrever tudo o que estava ao alcance dos olhos. cada palavra contém em si os sentidos que melhor dominam o que abarca a visão.

assim, quando pensa ler “amor” em um grupinho de palavras açucaradas, leia novamente: agarradinhas entre si, podem apenas criar um cômodo confortável para acomodar desconfortos, incertezas, (im)previsões.

mesmo aqui, nonada, é impossível determinar o que quer dizer qualquer coisa, ainda que dita: são punhados de folhas secas, de letras mortas, tentativas mal executadas.

poesia também: todo dia, como Santa Teresinha, vá pela pequena via. observe sem lançar mão das lentes da certeza. e então conheça. aspire ser águia, ainda que passarinho.

deixe-se envolver por um clichê. persiga-o até dar de cara com ele, assombroso, em uma caminhada na rua, recolhendo o cocô do cachorro. numa esquina recortada pela luz do sol irrompendo de frondosa árvore.

abra os olhos. invente verbos e conjugue-os sempre no imperativo. nomeie os seus amores. em todo o caso, ame, ainda que haja outros meios. palavreie tudo que te fizer sentir.