
Lord, this bitter earth
Yes, can be so cold
Today you’re young
Too soon, you’re old
era um buraco o que havia. nesse quaselugar, alguém-mulher sem face, uma perturbação. aquele rastro de indivíduo movia-se, sem dividir comigo o seu olhar exceto pelo Grande Olho oblíquo que pairava acima de nós, se sobrepunha a todos e nos observa enquanto, calados, fitamo-la, procuramos, debulhamos com movimentos velozes os pequenos fragmentos que se formam a partir do corpo dela.
não chego nunca a conhece-la, porque não apresenta, ainda que se torne íntima com o passar do tempo, sua face: a morte, representada pela duração do acontecimento, está à espreita. contorcidas feições na argila, ela senta frente a frente. muito rente, agora anuncia que algo está por um fio.
toda beleza possível contida no grotesco. as coxas e braços torcidos enlaçam as mãos que escondem — ou protegem — o rosto do corpo-mulher. eles dizem: esse é um Corpo. é mais um corpo, qualquer corpo. é um borrão, uma parede descascada, fora de foco. uma parede descascada e embolorada que rebola. apresenta suas linhas muito firmes e precisas. puxa pra dentro e atira pra fora as equações muito exatas. confunde e transfigura.
ao expor o sexo da criatura, a artista grifa a negativa em negociar com a ideia de corpo feminino: aquele é um Corpo que fala por todos os corpos, ou corpo nenhum. expõe-se e evoca o absurdo, traduz surrealidades contidas em cada corpo-possível inventando poses, criando formas, ocupando espaços intangíveis às pasmas bocas que assistem. e contraem-se.
o peito arfa durante o encontro e quase sufoca. palpita… suspende a respiração. cadencia o ritmo: pose, pito, flash, buraco, olho, espelho, mão, máscara, quadro,foto, barro, caveira, beleza, vaca, vulva. e mais rápido: posepitoflashburacoolhoespelhomãomáscaraquadrofotobarrocaveirabelezavacavulva.
e então o SIM. ou AH. sem espaço para conciliação ou negativas. silêncio. la petite morte: um suspiro refratário. estamos sós novamente.
(a partir da obra “A pequena morte”, de Lavínio Bizzotto)
