Tudo é bom quando vira memória. Enquanto martelava um prego em uma parede de concreto , aspirava a dureza e notava o pulso da força concentrada no centro do martelo. Até que o prego se partiu em dois: a cabeça jazia na minha mão e, por alguns segundos, não percebi que o que se dava era que, por vezes, a pressão é demais até mesmo pro prego.

Lamúrias do prego, segui catando os cacos da parede. Em três pontos, havia esfacelado-se criando pequenos buracos que formavam uma constelação para sinalizar: 1- a minha teimosia em bater com o prego no concreto (metáfora da vida assim, tão na cara e tão direta, ainda não tinha experimentado) 2- como as pequenas experiências do dia a dia são a porta de entrada para qualquer nível de conhecimento. Tudo isso pensava enquanto catava,de quatro, a metade do prego que escorregou para debaixo do móvel de madeira.

Nenhum desses grandes ensinamentos me teriam ocorrido se eu não tivesse escolhido as escadas em vez do banquinho de madeira para alcançar as portas de cima do armário e resgatar o antigo espelho da mamãe. Com moldura de madeira, “mais velho do que você”, veio cheio de poeira da casa antiga e ainda não tinha sido alocado no quarto. É que as vezes os objetos são a própria lembrança e as lembranças,ao contrário da memória, nem sempre são convenientes.

Desci a escada com o espelho na cabeça enquanto compunha um daqueles diálogos que jamais acontecerão em tempo algum, simplesmente porque na realidade já não há nada mais a se dizer.

Percorri então a Silva Teles e parei em frente ao Batista Pereira. Entrei atrasada e a servente ainda esperava no início da escada com a caneca de leite com achocolatado distribuída aos alunos como café da manhã. Tomei com pressa. Além do espelho, crer que cumprir horários seja uma ofensa pessoal é a maior herança que eu adquiri.

As aulas eram todas misturadas, e se embaralham sempre os dias em que a gente aproveitou o recreio para ensaiar o nosso grupo de dança e o dia em que estávamos em uma fila no corredor (era para o laboratório?) e a Bianca me disse muito assertiva, muito madura, que eu iria para o inferno por ser católica. A mãe e ela, não. Eu desviei o assunto pensando que estávamos já na 3a série e em breve teríamos que nos preocupar com coisas mais importantes como depilar ou não as axilas (esse pensamento veio,batata, da minha colega cujo nome não trouxe aqui agora mas que já tinha muitos pêlos e era impedida pela mãe de tomar qualquer providência drástica).

Uns passos mais a frente e chego na casa da Michele. Ela tinha um armário na sala cheio de biscoitos e salgadinhos. Todo dia, a Michele, a Marcelle e as outras meninas levavam merenda. A Michele abria a portinha do armário e escolhia o biscoito. Tratei de transferir os ensaios para a casa dela. A gente não tinha biscoitos e salgadinhos. E o que tinha, era dividido por três. A vida não é justa, foi o que aprendi com o armário de salgadinhos da Michele.

O mesmo ensinamento era demonstrado todos os dias no recreio: havia a merenda da escola — uma variação entre arroz doce e mingau — e a cantina. Como não tinha estômago para a merenda, nem dinheiro para a cantina, aprendi rápido: é mais jogo ser legal e é preciso descolar uma grana. Veja bem,a gente não estava ainda na 4a série

As traquitanas, pequenos golpes, empreendedorismo infanto-juvenil e empréstimos aos colegas é tão longa que inspiram uma lista a parte.

Saí a tempo de ver que as crianças cantavam o hino antes de iniciar as aulas e pensei em todos os caminhos e ruas curtas que a memória não dá conta de lembrar. A vida é uma rua do Andaraí no meio da tarde, nas férias. É a esquina da Rua Ladislau Neto com a Pontes Correa: meu primeiro beijo.

É a Conselheiro Paranaguá de madrugada vendo jogo de futebol com os meninos, ou na janela esperando um assobio. A Rua dos Artistas. A festa da Pereira Nunes. É a Maxwell em dia de festa junina no pátio da Fábrica de Tecidos (que virou mercado, mas é bem menos simpático). É o Mad, “Saudades Eternas”. São as amizades e pequenas experiências que, sem nos darmos conta, persistem martelando na memória. É, salve, salve, cada pequena tarefa doméstica.