Despedidas, Educação e Prestação de Contas para a Sociedade

Eu sabia que esse momento chegaria, mas que não seria antes de eu ter cumprido o meu pacto com a sociedade brasileira que investiu na minha Educação. E assim o fiz. É chegada a hora da próxima etapa da minha carreira: assumir a cadeira de Saúde Pública de uma Faculdade nos Estados Unidos.

Durante muito tempo, eu procurei ter mais clareza de como eu poderia contribuir com um Brasil melhor, claro, dentro das minhas inúmeras limitações. Não, essa não é uma história de nenhuma heroína que teve uma infância sofrida, pobre e que venceu na vida. Que são histórias bonitas e dignas também. Mas é uma honesta prestação de contas com as pessoas que investiram. em mim.

Eu tive a sorte de ter nascido em uma família que me deu tudo, literalmente. Muito melhor do que qualquer bem material, eu tenho uma família que me ensinou sobre ter os pés fincados no chão, sobre Amor, não alienação, foco, resiliência e outro sentimento nobre chamado gratidão. Estudei em um dos melhores colégios privados de Belo Horizonte e passei 10 anos me formando em Universidades Públicas, da Graduação em Odontologia (UFVJM), Mestrado (UFSC) ao Doutorado (UFMG), sendo a primeira aluna da Pós-Graduação em Odontologia da FO-UFMG a estudar em HARVARD. Bom, quem, também, ajudou a pagar toda essa conta de uma década de estudos foi a sociedade.

A minha história é um exemplo clássico de uma parte da organização educacional desigual e injusta do nosso país. Garante uma vaga mais certeira nas cadeiras das Universidades Públicas quem pode pagar ensinos médio e fundamental privados. Essa é a lógica que funciona, infelizmente, na maioria das vezes. E, sinceramente, cotas em um país continental e iníquo não resolverão a questão tão cedo. Em 2014, a 5a parcela mais pobre (renda média per capita mês = R$192) representava 7% do número de matriculados em Universidades Públicas no Brasil.

É bom lembrar que um aluno de graduação custa, aproximadamente, de R$9mil a mais de R$15mil/ano para os cofres públicos. Considerando que os cursos de graduação duram, em média, 4 anos, são quase R$50mil reais gastos por aluno/ano pagos por mim, por você, pelo João, Maria, José, Ana, Joana, por todos nós brasileiros.

Há grande insatisfação por parte dos pós-graduandos quanto aos valores baixos das bolsas de Mestrado e Doutorado. Fato. Ainda estamos longe de uma remuneração digna. No entanto, a CAPES — Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do Ministério da Educação, concedeu mais de 39mil bolsas de Doutorado e 48.113 bolsas de Mestrado, além quase 10mil bolsas para iniciação científica em 2013. Cerca de 18mil alunos de graduação foram ao exterior com bolsa da CAPES em 2013. Para o ano 2012 (dados mais recentes disponíveis para consulta pública) foram gastos pelo governo brasileiro em bolsas mais de 2milhões de reais. O CNPq do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação também investe outros milhões.

Eu convido a você, meu colega titulado, que estudou integralmente em Universidades Públicas, ou que faz parte da seleta estatística de +/- 40 e poucos Doutores para cada 100mil habitantes, a fazer a seguinte reflexão: qual o retorno você deu à sociedade?

Ah, a reflexão vale para você que cursou “somente” a graduação em Instituições Federais/Estaduais. Vale para você, também, que se beneficiou do Ciências Sem Fronteiras para dar uma guinada na sua formação: qual o retorno você deu à sociedade após sua viagem?

Essa era a pergunta que não saia da minha cabeça: qual seria a minha contrapartida para a sociedade.

Prestei apenas dois concursos públicos para professor em Universidades Federais. No primeiro, fui desclassificada e me questionei várias vezes se eu era algum tipo de farsa dentro da minha área. Ou, ainda, se eu merecia, de fato, um título de Doutora. Eu não podia viver com aquela dúvida. No segundo, fui aprovada com notas máximas na prova escrita, projeto e didática. Pronto, podia seguir o meu caminho em paz. Eu descobri que sucesso profissional e o retorno para sociedade não estavam atrelados, unicamente, a ter uma cadeira — agora na versão Professora — em uma Universidade Federal.

Francamente, eu acredito que há uma geração de Doutores frustrados que não conseguiram o seu lugar ao sol, orientados que a única fórmula possível de realização profissional seria fazer parte do time das Públicas. Eu tive a sorte de ter sido orientada por uma pesquisadora brilhante e uma mulher justa e humana durante o meu curso de Doutorado. Ela me ensinou que não há um único ou um melhor caminho. Nem escolha certa ou errada, mas, sim, o MEU caminho e a MINHA escolha, desde que eu usasse a ciência e os meus conhecimentos para transformar, de alguma maneira, o entorno em minha volta.

Quando se pensa em uma Pátria Educadora, a formação de Mestre e Doutores possui função determinante e estratégica na engrenagem econômica, na melhora da vida das pessoas e melhora de indicadores sociais de um país por meio da ciência aplicada na solução de problemas reais e/ou da formação de massa crítica para desenvolver habilidades e competências de futuros profissionais aptos a transformarem positivamente o contexto em que vivem, guiados pelas melhores evidências disponíveis.

Há 6 anos, eu escolhi trabalhar no setor privado e, finalmente, entendi como eu cumpriria o meu pacto com a sociedade. São nas Faculdades privadas que estão matriculados, na grande maioria, os brasileiros que trabalham o dia todo e vão estudar à noite ou invertem. Pessoas que adiaram o sonho de ingressar em um curso superior por falta de grana. Que estudaram em escolas públicas (salve o paradoxo!). Brasileiros que dão duro para estar em dia com a mensalidade, coordenar casa, cansaço, ônibus e, em muitos momentos, situações desanimadoras. Brasileiros que pagam os impostos como eu e você, mas que na corrida pelo acesso às vagas das Universidades Públicas ficaram na desvantagem por motivos óbvios.

Começou a fazer sentido para mim trabalhar com um grupos de pessoas que não tiveram as mesmas condições que eu tive. São pessoas que não aceitaram, simplesmente, a “loteria biológica” do “bem nascido” e foram escrever as próprias histórias. Foram para essas pessoas que eu me comprometi a ser a melhor versão de mim mesma como pessoa, como educadora e como gestora acadêmica. Com esses alunos compartilhei, sem filtros, o melhor do que aprendi dentro e fora do país. Busquei estimulá-los, incansavelmente, a descobrirem as possibilidades da Educação como agente de transformação. Apresentei aos alunos um pouco do mundo da Ciência — mesmo com recursos escassos. Reforcei inúmeras vezes que ninguém não precisa de titulação para ser respeitado, mas, sim, decência e inteireza. Títulos e o número de artigos publicados não te faz nem melhor e nem pior do que ninguém. Dei exemplos próprios, pessoais, de fracassos e insucessos.

Para mim, fez muito sentido contribuir e comemorar muito um bom IDD (Índice de Desenvolvimento Discente) que é um o Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observados e Esperados do aluno. Basicamente, é a diferença entre como esse aluno entrou e como saiu do Ensino Superior. O IDD mostra a capacidade da Instituição de Ensino desenvolver e ampliar o conhecimento ao seu aluno ao longo do curso. A pontuação desse indicador é de 1 a 5. Assim, receber um aluno 2 e entrega-lo para o mercado 4 reafirmou o meu compromisso com uma de minhas funções estratégicas na sociedade.

Com os colegas, dividi o que aprendia durante workshops, treinamentos institucionais, conversas sobre sala de aula e metodologias ativas de ensino. Aprendi muito com eles nos corredores, nas salas dos professores, nas bancas diversas e. nas conversas informais também. Comprometi-me com a geração de novos empregos, abertura de novos cursos, trabalhei e coordenei cursos nos três níveis de Educação (Técnico, Graduação e Pós-Graduação), com um time de amigos formamos, com afinco, especialistas para o Sistema Único de Saúde. Trabalhei, com amor, na formação de Médicos, Dentistas, Enfermeiros e Profissionais de Educação Física. Ah, e na formação de técnicos em Saúde Bucal.

À Ânima Educação, um dos maiores e melhores grupos Educacionais do País, e ao UNIBH, muito obrigada por me acolherem, por me desenvolverem como gestora e docente, por acreditar e por manterem viva em mim a máxima de transformar o país pela Educação.

Aos mais de 1mil alunos com quem tive o prazer de conviver e aprender e aos meus pares, deixo, respeitosamente, os meus agradecimentos e as saudades antecipadas.

A cada brasileiro, deixo este pequeno relatório de transparência. Espero ter retribuído, à altura, cada centavo do dinheiro público investido em mim.

Sinceramente,

Carolina Borges

*Publicado, originalmente no Facebook em 01 de Julho de 2016
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