Você vive para si ou para o capital?

Escrevo esse texto após seis horas no escritório. Ainda me encontro sentada na minha mesa, com o ar condicionado ligado, em um momento sincero de tédio, analisando a quantidade de coisas legais que faria caso não estivesse aqui. Tenho a sorte de amar o meu trabalho e de acordar toda a manhã animada com o resto do dia. Mas não valorizo a ideia de passar intensas oito horas, às vezes nove, dez, onze, dedicando-me apenas a isso.

Há tempos reflito sobre o peso mórbido que o capitalismo e a academia impõem sobre as costas dos humanos. Sobre essa intensa cobrança de sermos produtivos em todas as horas do dia. Sobre a nossa capacidade ser medida por números fictícios em contas bancárias ou pedaços de papel sujos em nossas carteiras.

O capital ditou a minha escolha profissional. Poetisa que sempre fui, amava literatura na escola. Como assim letras? Vai viver de que? Comunicativa, cogitei seriamente estudar jornalismo. Mas o mercado de trabalho é muito complicado. Você vai ganhar uma merreca. Indignada com injustiças sociais, pensei em história. Mas não tem como ser professora pro resto da vida, por favor! No final, acabei no Direito por essa forte lenda urbana do concurso público.

Já adoeci com transtorno de ansiedade na época em que precisei terminar a faculdade e passar na prova da OAB. Acreditava que o meu valor como indivíduo estava em conseguir um diploma universitário, em provar ao mundo o quanto era capaz de exercer a minha profissão. Vi diversos amigos sofrerem com depressão pela cobrança insensata da academia, que fulmina a liberdade individual com provas seguidas e prazos desnecessários.

Quando se pensa no mercado de trabalho, a situação não é diferente. O trabalhador somente é valorizado pelo o que é capaz de produzir. Você se torna um número: toda a sua beleza e unicidade é ignorada, o que vale é quanto consegue suportar o peso da labuta nas suas costas. Mais resultados, cobranças, prazos. Tornamo-nos máquinas de gerar lucro para o patrão,
 que não se importa se estamos cansados com as tarefas e precisamos de um prazo maior, ou se é necessário dividir o trabalho.

Não à toa que a nossa Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é um reflexo da primazia do empregador, pois lhe concede possibilidades irrestritas. Direi em termos simples, não técnicos. Você trabalha o ano inteirinho e espera com amor as férias. Acontece que o seu chefe tem mais um ano para concedê-las, sem que sofra nenhuma sanção pecuniária. Ou seja, trabalha-se até dois anos contínuos até conseguir um suspiro e tempo pra si.

O capitalismo é insustentável. O planeta não mais aguentará o ritmo excessivo das interferências ocasionadas pela produção em massa. E questiono até quando os humanos suportarão o massacre da sua felicidade e individualidade em prol do enriquecimento de poucos. Precisamos debater esse sistema que nos cobra incessantemente, faz-nos acreditar que somos o que consumimos, e que o nosso sucesso é medido por quanto ganhamos.

Vivamos para nós e não para o capital. É necessário priorizar a nossa qualidade de vida, a viagem no final de semana, a cervejinha no bar da esquina. Que tenhamos a coragem de largar aquele emprego que nos causa tristeza e desconforto. Que reunamos força para não nos compararmos com o nosso amigo rico que viajou para as Maldivas — essa indireta foi pra mim mesma, ok. As palavras são resistência e consciência de que viver não cabe no Lattes.

A interlocutora que vos fala ainda se encontra sentada no escritório. O ar condicionado está mais congelado que nunca. Existe uma pilha interessante de processos à esquerda que são ignorados com sucesso. Levanto, como um doce e penso em escrever uma poesia de amor, daquelas bem chicletes e clichês. O trabalho pode esperar um pouco, pois a vida aqui dentro pede passagem.