Beyond the door, there’s peace I’m sure. And I know, there’ll be no more tears in Heaven.

Há um lugar especial no meu coração para avós imigrantes — as avós com rostos enrugados e sorrisos lúdicos; com a mente transbordando com receitas tradicionais, remédios caseiros e superstições que assombram a pátria; com coragem e sacrifícios escondidos que traem um comportamento gentil.

Essas avós vagueiam pelos corredores vazios de suas casas tranquilas logo que a manhã desperta. A luz do amanhecer ilumina milhões de partículas de poeira, como fadas no ar. Alguns incensos e aromatizantes na sala de estar, mas é na cozinha que as encontramos, esvaziando sua fiel chaleira em um bule de chá e se preparando para outro dia. “Você está com fome?”, ela pergunta.

Essas avós têm um lugar especial no meu coração.

E a história muitas vezes é algo assim. Nossos pais têm que trabalhar e por isso crescemos no colo de nossas avós, com sua idade avançada, know-how de criação dos filhos e a falta de familiaridade com o novo país e cultura trazendo-as para uma nova vida de cuidados com os netos.

Eles tornam-se nossas primeiras amigas.

Suas piadas se tornam as nossas piadas. Sua música favorita se torna a nossa música favorita. Elas são como nossos pais substitutos: colocam band-aids sobre as feridas, são os árbitros quando ocorre uma luta entre primos e os braços que sustentam nossos corpos machucados quando a dor e os gritos são grandes demais para suportar sozinho.

Nossas protetoras, elas cuidam de nós. De longe. De perto. Do sofá onde costumávamos assistir algum drama da TV aberta. Da cozinha, onde eu ainda posso sentir o cheiro dos aromas deliciosos de uma noite jantar de domingo (eu anseio por outra, se eu pudesse ter outra).

Mas, com muita frequência, a história toma este rumo previsível. Nós crescemos. Nós crescemos separados, separados não só pela distância, mas também por nossas trajetórias na vida. Um de nós aparentemente está se movendo para frente, o outro, preso a uma vida deixada para trás.

O tempo nos domina e nós ficamos submersos em seu rio implacável. Um verão na casa da avó torna-se uma possibilidade a ser pesquisada, em seguida, um “talvez, quem sabe”, até atingir um patamar remoto. Faculdade, trabalhos, amigos, compromissos inadiáveis. Expostos pelas banalidades do nosso cotidiano, podemos esquecer aqueles que já respiraram sua própria vida na nossa.

Cinco meses se passaram desde a última vez que nos vimos, em uma fatídica luta contra o câncer. E, infelizmente, nós nunca mais vamos nos ver novamente.

E há coisas naturalmente deixadas desconhecidas entre nós duas.

Eu nunca vou saber sua história, como você foi criada na Itália depois de fugir da pobreza e da fome no sul do Japão. Eu nunca vou saber como você se sentiu quando percebeu que iria crescer sem seus pais, tendo ambos morrido durante a sua juventude. Eu nunca vou saber o que você pensa sobre as minhas pesquisas oncológicas, feitas com base em você. Eu nunca vou saber sua receita Kare Rice. Eu nunca vou saber quais eram os seus sonhos quando menina.

E você não saberá dos meus amores, que eu tanto queria compartilhar com você. Você nunca saberá o quanto eu senti sua falta nesses últimos cinco meses e o quanto eu queria apenas juntar dinheiro para uma passagem com destino à sua casa, em ‘Novo Hambúrguer’. Você nunca vai saber como foram nossas formaturas — como uma família enraizada na pobreza, geração após geração, foi capaz de produzir engenheiros e advogados nos meus primos e uma médica em mim (faltavam só alguns alguns anos — estávamos tão perto — era um de seus últimos desejos, eu sei).

Quando eu sento aqui, apenas fisicamente saciada, na compulsão de um jantar preparado para anestesiar a dor, eu tenho consciência da impossibilidade, mas desejo mais uma refeição juntas, onde eu iria tentar encadear uma frase ou duas em nihongo e você iria tentar me forçar a comer mais arroz. E então nós nos sentaríamos em silêncio por um tempo. Em paz. Felizes. Apenas por estar uma com a outra.

Onde quer que você esteja, espero que seja um lugar parecido com sua concepção de pós-morte, com tranquilidade e paz. Espero que seja algo ou algum lugar que permita espreitar para fora em meu mundo, lá de vez em quando, pra verificar como eu estou e sussurrar um “Olá” para a brisa.

E eu espero que você saiba que eu estarei procurando por você. Eu vou estar ouvindo essa mesma brisa, olhando nos olhos de cada criatura gentil que eu encontrar, e desfrutarei do silêncio da madrugada, quando seus passos silencioso e o assobio chaleira costumavam permear a minha totalidade.

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