O Quase

Era uma vez uma estrelinha do mar. Ela era feliz junto das outras estrelinhas da sua espécie. Não lhe faltava quase nada e esse quase ela não tinha a menor ideia do que era, então, sem o conhecimento do que desejar, aquela pequena estrela quase não sofria pela falta daquilo que poderia completá-la.

Era como se a felicidade da completude fosse uma espécie de bônus, já que a sua quase satisfação com a vida fosse suficiente para seus padrões, por mais que no fundo ela soubesse que faltava alguma coisa.

Só que um dia, perto de uma pedra, na praia, ela viu. Ela na verdade nem sabia que aquilo era um desenho numa embalagem de Doritos, e isso não tem a menor importância na nossa história, pois o que a estrelinha viu, ela desejou.

E seu desejo envolvia cada detalhe daquele desenho brilhante. Todos os dias estrelinha ansiava o momento em que a maré a levaria próxima da pedra onde o desenho estava e ela o veria, cada dia com mais admiração.

Todas as noites ela se angustiava imaginando que no outro dia o desenho poderia ter se soltado da pedra e ela nunca mais o veria. Mas no outro dia, lá estava ele, com todas as cores vibrantes que estrelinha só via nele e ela sorria e aquela presença aquecia todo seu dia.

Ela pedia aos deuses do mar que o desenho fosse de plástico, ou de qualquer material não biodegradável, para que ele durasse pelo menos 450 anos, preso àquela pedra. Quando o vento mudou um pouco sua posição, estrelinha achou até que ele ficara melhor. E cada dia sua necessidade de possuí-lo aumentava.

Mas estrelinha sabia que não era possível. Por vários motivos. Primeiro porque ela nem tinha mãos para segurá-lo. Se ele se soltasse da pedra ela não poderia contê-lo e o perderia no mar rapidamente. Também porque ele estava no ar e ela precisava da água do mar para sobreviver. Mesmo que em alguns dias, nos de sorte, eles quase se encostassem, estavam em universos paralelos.

E estrelinha entristeceu. No começo, o desenho não atrapalhava a vida dela junto às outras estrelas do mar. Mas depois, nada se comparava a ele e as outras estrelas e suas rotinas ficaram cada dia mais entediantes e frustrantes.

Foi quando ela percebeu. Primeiro, se enganou que poderia simplesmente esquecê-lo. Não ir à pedra, não apreciar, voltar para a sua vidinha quase perfeita. Mas já não era possível. Estrelinha viu que ao dar forma e nome ao que lhe faltava, o quase tornou-se o mais importante. Não que a falta houvesse crescido. Pelo contrário. Diminuiu, porque agora não havia desconhecimento. Estrelinha sabia o que lhe faltava. Por outro lado essa consciência fazia com que um pequeno desenho — ou a distância dele — deixasse todo o resto desimportante. Quase inútil.

E assim estrelinha foi vivendo seus dias, suportando a vida no mar — que ficava cada dia menos interessante — graças aos raros momentos admirando um desenho, em outro mundo, que nunca alcançaria.

Infelizmente, diferente de embalagens não biodegradáveis, estrelinhas do mar não vivem 450 anos, apenas cinco. E nossa estrelinha envelheceu e já estava morrendo. Ela nunca fez grandes viagens marinhas, teve estrelinhas filhotes, destacou-se em suas atividades equinodérmicas, mudou o mar. Preocupou-se apenas com o necessário para a subsistência e suas visitas ao incrível desenho. Agora ela mal tinha força para vê-lo diariamente. Encostada em um coral, ela meditava sobre a vida. Teria sido em vão sua existência? Porém, que outra estrela do mar teve em sua vida a certeza de ter encontrado aquilo que lhe completava, mesmo sem poder apoderar-se disso?

Então mais uma vez estrelinha pensou: teria sido o desenho tão importante em sua vida se ele estivesse ao alcance de suas pontas? E morreu.

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