
Conheci através do Oceano o Charlie e alguns de seus jornalistas. Há vários Hebdomadaires, ao longo de outros Oceanos.
A defesa da liberdade de expressão é difícil. Tem de tudo no mundo.
Às vezes, vendo uma criança sem a pele, olhando para sua máquina fotográfica ou seu bloco de notas, você se questiona. Você se identifica com seres humanos. Você se pergunta se faz a foto, filma, escreve ou salva.
Já vi meus limites, e sei que não posso salvá-los.
Se pudesse, não escreveria sobre eles. É difícil escolher entre a vida a morte. A dos outros
Há eventos graves e que fazem nós, jornalistas, sempre se indagarem — muitas vezes o idioma não ajuda, falamos várias línguas.
Mesmo assim, como teimosia, nos indagamos, nos questionamos.
Colocamos, nós, umas pessoaszinhas, como já disse, colocamos ao mundo o que conseguimos ver — porque não somos sobre-humanos. Observamos.
Às vezes, cometemos o erro de sentir.
Sentimos. Alguns colegas desmaiam.
Vomitam.
Outros se matam.
Outros morrem.
Ou perdem membros, mas seguem fazendo o que a gente faz: registrar.
Morrem, choram. Padecem.
De doenças, de alcoolismo, da vida crua. Cheiram.
Se assasinam-se.
Mas registram. É o nosso papel.
Escolhi o jornalismo por necessidade de servir às pessoas, sem julgá-las.
Me sinto profundamente tocada pela chacina no Chalie Hebdô, pois conheci ao longo dos anos alguns deles, por trabalhar com direitos humanos e liberdade de expressão.
Vivi uma época sem liberdades. Só códigos.
O resto é redação.
Várias redações.
E você chega numa redação repleta de sangue.
De vários corpos.
Já cobri assassinatos, já vi gente morta, já fui ameaçada, quantas vezes, aqui mesmo, em Porto Alegre. Por temas que não digo para não sofrer novamente.
Não vou falar de autocensura.
Nunca tinha pensado em uma redação repleta de corpos de seres humanos que apenas faziam charges.
INSOLÊNCIA.
Soube do atentado há 7 anos.
Não houve como, quando ou quem ia fazer.
Então aconteceu em 2015.
Não sei se são os mesmos.
Sei uma coisa.
São os Ninguém, os que sofrem da Síndrome de Inexistência e rogam a Alá alguma bala, com muito sangue. Quanto mais sangue, mais Alá, coitado. Tenho amigos muslins que serão perseguidos.
Estou em luto, por pessoas que são, foram e serão
SUBVERSIVAS
Para mim, a chacina de pessoas em uma redação foi um trauma.
Se na Nigéria pessoas morrem, posso ir para lá e tentar informar ao mundo sobre isso.
Eu conheci a redação do Charlie, e ela vai seguir sendo
UNABOMBER
O humor jamais morrerá.
Alá morrerá? já morreu.
Com armas, drogas, dinheiro de países envolvidos na África, Estados Unidos, e quem não sabemos.
Jamais temos todo o conhecimento.
A chacina do Charlie me diz para ser
HUMILDE
O humor é a extrema liberdade e a extrema ousadia.
Ousadia de dizer o que a maioria pensa e não fala.
Ainda estou chorando, mas isso passa.
A gente perdoa. Faz outras piadas.
E quem sabe ainda ri de tudo isso.
Vai ser difícil, mas a gente consegue.
Com nanquim.
Sem sangue.
13/01/2015