A ascensão dos poking games

Box1824
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Oct 21, 2014 · 4 min read

Há vinte anos, o flerte digital era visto como um comportamento novo, de poucos adeptos. A novela “Explode Coração”, de 1995, explorou esse assunto de maneira vanguardista, antecipando hábitos que hoje são considerados comuns. De lá pra cá, as redes sociais moldaram a lógica da socialização contemporânea: hoje, metade dos relacionamentos começam na Internet.

Paquerar via Internet tornou-se um hábito natural, explicado fundamentalmente pelo chamado online disinhibition effect. Trata-se do abandono ou relaxamento das restrições sociais que geralmente inibem a interação cara a cara. Online, as pessoas se sentem mais anônimas e modificam suas noções de respeito e bom comportamento, permitindo-se dizer e fazer sem medo de rejeição ou represália.

Segundo o psicólogo John Suler, especialista em comportamento online, os fatores que condicionam essa libertação são os seguintes:

“Você não me conhece.” “Você não está me vendo.” “Posso responder quando eu quiser.” “Internet é uma brincadeira e não há consequências.” “Meus valores pessoais não se aplicam aqui.”

A teoria Greater Internet Fuckwad explica os pontos acima de maneira sucinta. Segundo seu criador, John Gabriel, quando um indivíduo são recebe o poder de anonimidade e tem acesso à atenção de uma audiência, ele se transforma imediatamente em um “fuckwad”, passando a demonstrar comportamentos antissociais e psicopáticos.

A terra sem leis que é a caixa de comentários de um blog é a melhor exemplificação do online disinhibition effect. No YouTube, diálogos estapafúrdios envolvem até ameaças de morte a respeito de discussões que provavelmente não deveriam ser levadas tão a sério.

Não é à toa que as plataformas de conteúdo mais inovadoras estão radicalizando a maneira como lidam com os comentários, a fim de evitar os trolls. O Medium, sistema de blog desenvolvido pelos mesmos criadores do Twitter, foi pioneiro ao permitir que os leitores deixassem comentários por parágrafo, e não mais em uma caixa no final do texto.

Amor mobile

Tamanha desinibição aliada à tecnologia mobile causou a ascensão dos apps sexuais. Geolocalizado, o novo flerte agiliza o ritmo da paquera, deixando a busca por um parceiro cada vez mais parecida com uma ida ao supermercado. Até o ménage à trois migrou para o mobile. Sai na frente quem consegue ser mais espontâneo e entende que essas brincadeiras não passam de uma nova linguagem de conquista.

Lulu, o app mais popular no Brasil em 2013, sofreu um processo judicial e gerou muita polêmica com seu sistema de avaliação de homens. Fofoca, bullying e zoação entraram na pauta coletiva e escancararam as portas para o Smart Trolling.

A crescente popularidade destes poking games abre oportunidades para que marcas se insiram neste universo. A Taco Bells é a primeira marca a apostar no Snapchat, uma rede conhecida por promover o sexting. A rede de restaurantes colocou fogo em suas campanhas que não ficaram mais que 24 horas no ar.

Taco Bells no Snapchat.

No Brasil, a startup Namoro Fake oferece o serviço de aluguel de parceiros. Trata-se de um namoro de fachada, com direito a mensagens de Facebook e atualização do status de relacionamento. O sistema já está disponível em outros países, como Portugal, Estados Unidos e Canadá.

A revista Interview criou um editorial de underwear usando a estética dos perfis do Grindr.

É quase unânime o interesse do ser humano em amor e sexo, o que talvez explique o sucesso dos poking games. Eles facilitam a vida dos tímidos e estimulam ainda mais os desinibidos, mas também abrem muitas brechas. E é justamente entre essas brechas que a trollagem se infiltra, tornando imperceptíveis as nuances que diferenciam a piada do mistério da sedução.

por Eduardo Biz

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    Pesquisa em tendências de consumo e comportamento jovem. Textos também disponíveis no Ponto Eletrônico > www.pontoeletronico.me

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