O espírito punk do movimento Do It Yourself

Matt e Betsy Jabs poderiam ser um casal norte-americano qualquer. Matt trabalhava como técnico de informática e Betsy numa escola pública de ensino fundamental na pequena cidade de Bath, Michigan, e possivelmente ainda estariam nesses empregos se, em 2009, não tivessem decidido se demitir e buscar hábitos de vida naturais, saudáveis e sustentáveis.

Nascia o site DIY Natural, em que Matt e Betsy compartilham suas receitas naturais (e, em sua maioria, veganas) para produtos de limpeza, higiene, beleza e alimentação.

A produção independente deixou de ser sinônimo de uma produção de qualidade inferior à produção em larga escala. A democratização do acesso à tecnologia e à informação na era pós-internet tem permitido que o Do It Yourself (em português, “faça você mesmo”) vire expressão de quase tudo: desde a criação de móveis até o incentivo às hortas caseiras. Tutorias de Youtube, slow food e a busca por métodos naturais de cura são alguns exemplos de como o DIY ecoa nos hábitos contemporâneos emergentes.

Se ainda parece estranho pensar em fazer seu próprio desodorante, talvez esteja na hora de rever o movimento Do It Yourself por um ângulo político: ele encoraja indivíduos a consumir menos produtos industrializados e fazer suas próprias alternativas.

Sociedade do consumo, sociedade do espetáculo

“Este é o despertar da era de Aquário”, ecoava o musical Hair em 1967, no refrão de uma de suas canções mais famosas. A nova era, que teria começado nos anos 1950, prometia “harmonia e compreensão, simpatia e confiança, a verdadeira liberação da mente”, conforme a letra composta por Galt MacDermot.

Coincidentemente ou não, estes aspectos também são particulares do movimento punk, que surgiu e se popularizou no Reino Unido, na Austrália e nos Estados Unidos na metade da década de 1970, caracterizado pelas suas visões antiautoritaristas, de não-conformidade e de promoção da liberdade individual.

Estas mesmas noções deram força ao movimento Do It Yourself, que dentro da prática de consumo tem registros datados tão cedo quanto no ano de 1912. O termo se popularizou na década de 1950, com referências até então relacionadas majoritariamente aos aperfeiçoamentos domésticos. Foi com o movimento punk, que partia de uma ética que fugia do espectro do consumismo cada vez mais visível na vida em sociedade, que o DIY se difundiu, desde então com crescente relevância. Na essência de sua ética, tanto o punk quanto o DIY enfatizam uma relação de maior intimidade com nosso consumo pessoal.

Os adeptos do movimento passaram a comprar menos roupas de lojas grandes, priorizando roupas de brechó ou reformadas por eles próprios; os músicos adeptos ao gênero produziam seus álbuns e shows de forma independente, sem a mediação de uma gravadora ou distribuidora, dependendo fortemente de estratégias de divulgação como o design e distribuição de flyers, pôsteres e outras peças gráficas.

Na mesma época foi lançado o livro “A Sociedade do Espetáculo”, de autoria do pensador francês Guy Debord, em que se afirma o papel do espetáculo na sociedade como uma fábrica de alienação cuja expansão econômica parte principalmente da expansão da produção industrial.

A visão crítica de Debord a respeito das indústrias construídas em cima das necessidades dos indíviduos é intrigante, ainda mais considerando o cenário contemporâneo, em que a publicidade é marcada pela comercialização não de produtos, mas de desejos e experiências.

A obra é um marco para o pensamento situacionista, mas é na seguinte frase que o francês consegue ser ainda mais certeiro: “Quando a sociedade descobre que ela depende da economia, a economia, de fato, depende dela.”

Esse pensamento é o grande responsável pela ressignificação e eclosão do movimento DIY que acontece nos dias de hoje. Com o fortalecimento da noção de um consumo reduzido e consciente, os nossos hábitos comportamentais estão em constante evolução. Cada vez mais conscientes do impacto humano em nosso ethos, existe uma grande parcela de indivíduos que já aderiu, de uma forma ou outra, ao espírito punk presente no método “faça você mesmo”.

Faça você também

A Internet iniciou um processo de horizontalização, dando voz a qualquer indivíduo a partir de inúmeras plataformas. Redes sociais como Pinterest, DeviantArt, Tumblr, FanFiction.net e ao3 evoluem a passos largos, juntamente a blogs especializados — seja em receitas culinárias, artesanato, cinema, roupas, webdesign e tantas outras possibilidades.

Também podem ser citados sites populares como Instructables, que dispõe de diversos tutoriais sobre como fazer quase qualquer coisa. Nestes meios, promove-se uma retomada da postura política do termo DIY, agora associado à produção de bens de consumo de forma caseira e com menor impacto ambiental.

A chegada do DIY ao mainstream: Bela Gil é adepta e defensora do movimento slow food e ensina a fazer produtos de higiene caseiros, como o desodorante da foto.

Importante notar que a ética do DIY vai além dos produtos que conseguimos reproduzir ou dos suportes que conseguimos construir para suprir as nossas necessidades. O pensamento central do DIY parte de duas ideias simples: autosuficiência e criação de algo feito completamente sob medida e sob as mais peculiares especificações para si mesmo. Elas são, também, duas das premissas mais importantes para o movimento punk, ligadas especificamente à busca pela liberdade e identidade, que vemos expressas nas mais diversas iniciativas.

DIY literário: o Kindle Direct Publishing é uma ferramenta da empresa Amazon que possibilita uma autonomia econômica e criativa a partir de publicações de qualquer usuário.
DIY cinematográfico: o coletivo britânico Exploding Cinema projeta filmes de cineastas independentes em praticamente qualquer lugar do país, em exibições gratuitas.
DIY televisivo: criada pelo ator Joseph Gordon-Levitt, o HitRecord utiliza mídias diferentes produzidas pelos próprios usuários para criar projetos como curtas, filmes e DVDs.

Punk contemporâneo

O movimento DIY é uma ameaça para a grande indústria do consumo. Como uma instância de micropolítica, o DIY incentiva a produção local — seja através do consumo de produtos artesanais, alimentos orgânicos de agricultura familiar ou mesmo o próprio ato de fazer algo você mesmo — e assegura um consumo consciente e colaborativo, além de destacar a autosuficiência e independência do indivíduo.

A ética DIY é um instrumento político, de afirmação ideológica e de alternativas sustentáveis socioambientalmente. É a descoberta dos potenciais inertes não só nos materiais que manipulamos e nas coisas ao nosso redor, mas em cada um de nós. Trata-se não só de construir as coisas do zero, mas de inventar novas soluções, de estar atento para as novas possibilidades de inovação.

Quando crianças, somos incentivados a brincar com nossa imaginação, com os estímulos sensoriais e com as nossas habilidades motoras. Não há motivo para perdermos o contato com nenhuma dessas coisas quando crescemos. A sensação de orgulho quando criamos, construímos ou descobrimos algo por conta própria continua a mesma, adulto ou criança.

Para além dessa micropolítica, DIY é uma brincadeira. É um experimento. É um hobby. É aceitar nossos erros e buscar soluções criativas e econômicas. É aprender com cada projeto e, principalmente, descobrir que somos capazes de fazer praticamente tudo.

por Lara Carvalho

Essa reflexão contribui ao novo estudo da Box1824, “The Rise Of Lowsumerism”.
O
vídeo abaixo retrata o processo de autodestruição causado pelo consumismo e esclarece sobre uma nova consciência que está impactando a sociedade contemporânea: ser mais consciente e consumir menos.
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