Crônica para um jovem idoso

Old Hands, by Yasli Eller

Passo praticamente o ano inteiro sem lembrar desse dia. Ele me parece tão distante quando a reforma agrária neste país. Mas eis que ele chega, e com ele a onipresença incômoda do fiscal das realizações, cobrando seus tributos. Não ouso me virar porque sei que ele está a me encarar severo, sentado no sofá atrás de mim, com um arquivo com meu nome. Ele não tem pressa; sequer olha o relógio. Sabe que, mais cedo ou mais tarde, teremos que prestar contas.

Desde a véspera o estômago fervilha. Todos os tiques aumentam imensamente. A insônia acampa comigo, versando sobre histórias antigas. Mas não tem jeito. Nem todos os cigarros do mundo me fariam relaxar. Nunca fui desses tipos dados ao relaxamento. Talvez devesse tentar qualquer dia desses essas velhas novidades que vem do Oriente, umas meditações, mantras, uns incensos… não adiantará. Quando se tem 130 anos e todos os maus hábitos do mundo, pouca coisa ou quase nada realmente adianta pra nos mudar.

Ainda tento relutantemente passar o dia absorto. Entreter-me com qualquer inutilidade desimportante e supérflua. Inventar algo sensacional que um milhão de pessoas também pensou. A quem estou querendo enganar? Quando muito tudo isso se trata apenas do reflexo de minha covardia. No auge do desespero, colocar os projetos atrasados em dia, na esperança que ele considere esse derradeiro esforço. Deve contar alguma coisa, não é mesmo?

Pois bem. Vamos ao que interessa…

Ele abre o arquivo com a cara sisuda de um burocrata do funcionalismo público. Todos com as mesmas caras iguais e indiferentes, eles não se importam com as circunstâncias, apenas medem a eficácia de nossas conquistas. Folheia uma ou duas páginas, e depois mostra bem na minha cara:

Era o que eu temia. A verdade que me custava tanto encarar. A perspectiva angustiante que a cada ano degrada minha já parca motivação. Se tenho justificativas pra dar? Penso por uns instantes, me agarrando a essa última tábua de salvação, e: não! Não as tenho, e terei que assumir os custos. É isso.

Mais um ano se passou e pouca coisa realmente mudou. E aqui me encontro, revivendo os momentos marcantes, as oportunidades perdidas, ora por comodismo em assumir ocupações desmotivantes, ora por puro receio de fracassar. Pouco avancei no quesito profissional, mas para ser justo, alguma aquisição material consegui, ainda que ínfima. Pouco me diverti, embora tenha lido bastante em quantidade, pouca coisa pude realmente absorver. No quesito emocional, ainda mantive a minha velha inaptidão em adquirir e conservar relacionamentos, e chances para provar isso não faltaram. Descuidei demasiadamente da minha saúde, aumentei consideravelmente meus vícios, maltratei meu corpo a níveis pouco inteligentes para uma pessoa na minha condição de vida.

Se fiquei mais sábio? Pouco provável. O mais certo é que tenha ficado mais ranzinza, menos paciente, menos esperançoso, menos crédulo e diminuído minhas expectativas a um grau de mediocridade absurdo. Bom, não posso dizer que tudo foram espinhos nesse jardim de cactus, algumas florzinhas miúdas brotaram. Conheci pessoas interessantes, quais me agradariam bastante se fortalecêssemos os laços. E se for pra ter alguma meta alcançável no ano vindouro, que seja essa então. Além de publicar meus textos nada comerciais, óbvio. Por fim, da lamúria e dessa crônica, me despeço diligentemente do fiscal, embora não seja um fim. Até ano que vem.

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