Cigarros
maldito Fernando
maldita tabacaria de defronte
maldito Esteves sem metafísica
maldita garota suja que come chocolates
malditos deuses
largados no espaço
incapazes de responder suas perguntas
porque não há palavras
não há como haver palavras para perguntas que não foram feitas
malditos sejam
estou no quarto cigarro
o tempo sopra a brasa que vai consumindo o tabaco aos poucos
assim como o tempo me consome os anos de vida
até que os fios se tornem brancos
até que me sente na área de uma casa
e fume mais do que deveria
e chore
por sentir o peso dos sonhos não realizados
a dor de não ter vivido
estou aqui a uma hora
o vento corta minha pele
o calor da brasa esquenta minha alma
meus dedos gelados tentam traduzir meus pensamentos
minha mente grita
meus dedos se perdem
preciso de outro cigarro
e um vinho barato
raios cortam a escuridão como facas de dois gumes
implacáveis
invencíveis
e como num passe de mágica se desfazem
sem rastros ou vestígios
aos poucos, pequenos pontos de luz salpicam o céu
talvez alguém
a centenas de anos-luz daqui
num planeta parecido com este
escrevendo algo como versos
esteja pensando em alguém como eu
