#7x1day, ano 1: 1.520km foi pouco

ou Um relato em primeira pessoa de quem nem deveria ter estado lá


Registre-se para a posteridade, quando a velhice me fizer acreditar que minhas memórias do 8 de julho de 2014 são mais claras do que deveriam.

Do que se deu em campo, só tenho duas lembranças fortes do Brasil 1 x 7 Alemanha: o gol-recorde de Klose e o impedimento não marcado de Oscar no tal gol “de honra”.

Passados 365 dias, percebo agora que ter estado a uns 10 metros dos protegidos de Dona Lúcia naquela noite me fez ignorar o jogo em si. O quarto gol alemão, por exemplo, só vi no dia seguinte. Naquele minuto 25, me ocupava procurando Luiz Felipe Scolari, escondido na casamata do Mineirão.

Este texto é quase um mea culpa. Não cobri o jogo. Preocupei-me mais com a torcida. O que xingavam? E com Felipão. Por que estava sentado calado? E Bernard. Por que guardava as mãos na cintura? David Luiz. Por que não gritava com ninguém? Fred. Por que olhava tanto para o alto? Paulo Paixão. Sal grosso. Victor. Rosário. Neymar. Marquezine. Assistir à partida seria perder o espetáculo.

Mesmo com tantos atrativos, abandonei meu lugar no setor destinado à imprensa aos 43 minutos. De impulso, desci o Mineirão correndo, impaciente para esperar elevador. Atravessei a esplanada às pressas. “Se o senhor sair, não vai poder entrar de novo”, inventou um segurança. “Foda-se”, ele ouviu. Quando começou o intervalo (as vaias me permitem ter certeza do segundo exato), eu já estava na Avenida Abrahão Caram. Eu e mais 10 mil.

No sereno, percebi o estômago em ebulição. A cabeça doía, a garganta arranhava, o corpo sentia os 30 dias de cobertura. Entrevistei uns torcedores, tentei fotografar no escuro, corri mais. Para outro portão, e então para o acesso à imprensa. Subi saltando os degraus. Voltei ao meu lugar aos seis minutos do segundo tempo, jurando que o colapso dos rapazes de Felipão já durava algumas horas.

Determinado a escrever de uma vez a crônica da tal semifinal das semifinais, botei os olhos no gramado enquanto digitava sem tomar fôlego. Começaria assim o material no Correio Braziliense do dia seguinte:

Houve um tempo no qual o brasileiro questionou se a Inglaterra seria mesmo a mãe do futebol. Do lado de cá do Atlântico, afinal, mudamos a relação entre a bola e os pés. Inventamos dribles, procriamos craques, fabricamos esquadrões. Conquistamos o mundo cinco vezes. Transformamos o esporte em mercadoria para exportação. Mas assim como impérios vêm e vão sem que os indícios da derrocada sejam bem interpretados, a Seleção Brasileira não percebeu que estava prestes a entregar o cetro.

Não cheguei a nutrir simpatia pelo time comandado por Scolari. No Mundial, o colapso do Mineirão foi meu quinto e último jogo do Brasil in loco. Na Copa das Confederações, acompanhei quatro. Sem contar tantos treinos (?), amistosos, entrevistas. O motivo do desapego? O papel óbvio de farsante interpretado por Felipão. De tão indisposto em ouvir ideias diferentes, em três coletivas diferentes ele tirou tempo para se irritar comigo. “É pessimismo demais”, cheguei a ouvir, depois do Brasil 3 x 0 Espanha.

Ainda assim, um 7 x 1 é difícil de somatizar, não importa o quanto o consciente tente te puxar para a realidade. Depois do vexame, ruí junto da Seleção Brasileira. Minutos depois do apito final, eu vomitava todo o feijão tropeiro daquele dia. Passei mal até dormir.

E cada minuto compensou. O balanço final é de que valeu a pena descumprir a escala da cobertura da Copa. No dia anterior ao show dos meninos de Santa Cruz Cabrália, ao decidir que não pularia das quartas de final direto para a decisão, abasteci o carro e peguei a estrada de Brasília a Belo Horizonte sem pensar. E, um 7 x 1 depois, restou uma certeza. Para tudo aquilo de novo, 1.570km (ida e volta) foi pouco.

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