Nada vai mudar muito
Ou “De como Marco Polo Del Nero estava certo desde o começo”

Quando Ricardo Teixeira foi obrigado a deixar seu reinado de 23 anos na CBF, a análise mais certeira do tal período de mudança saiu da boca de Marco Polo Del Nero.
Numa época em que até Romário se dizia feliz com os novos rumos da entidade, o (por enquanto) atual chefe da CBF avaliou perfeitamente a situação numa entrevista ao Estadão:
“Nada vai mudar muito.”
O tempo testemunhou a favor de Del Nero. De novidade, só mesmo o aumento nas comissões pagas a intermediários.
Qualquer avaliação completamente positiva a respeito do anúncio da saída de Joseph Blatter do comando da Fifa também corre perigo. A tal terça-feira histórica para o futuro do futebol mundial dificilmente vai entregar o que promete.
Tivemos, na melhor das hipóteses, uma “ocasião para o otimismo”, na escolha perfeita de palavras de Sunil Gulati, presidente da Federação Norte-Americana de Futebol.
A cada avanço do Fifagate, ficou evidente que Blatter não completaria mais quatro anos de mandato. A bem da verdade, se o cartola virar o ano intacto em Zurique, poderá se considerar com mais lucro do que a Fifa em ano de Copa do Mundo.
Então, a renúncia de Blatter é, sim, um marco. Mas não significa nada perto das necessidades de reforma na governança do grupo que regula/comanda financeiramente o esporte mais popular do mundo.
Enquanto houver esperança de fair play nas contas e no comportamento de quem ocupa a Fifa, não faltará empenho para que a estrutura se mantenha viciada. Uma simples troca de nomes não será capaz de alterar uma organização propícia para corruptos: a essência arcaica seguirá de pé não só na entidade, mas também em cada uma das 209 federações nacionais e nas seis continentais.
Michel Platini, o favorito a suceder Blatter segundo as casas de apostas, votou no Catar para sede da Copa do Mundo de 2022 e dias depois — coincidência, não? — viu o filho empregado por uma empresa de marketing esportivo daquele país.
Luis Figo, em tese o mais “limpo” dos candidatos, teve a carreira ligada ao agente Jorge Mendes, uma das figuras mais controversas do futebol mundial pela forma como trata as negociações de seus clientes.
Por enquanto, por uns minutos, que haja celebração pelos dedos de Blatter, entregues por ele para evitar que a mão inteira fosse embora. Certo é que, como diria Marco Polo Del Nero, o sábio capaz de estar no país certo na hora certa…
“Nada vai mudar muito”
Este artigo foi publicado originalmente no Correio Braziliense