O que um russo, um argentino e um mexicano faziam numa livraria?

(Se estiver sem paciência para uma divagação despropositada, a lista com o melhor que li em 2017 ficou no fim do texto)

Adolfo Bioy Casares, obrigado por escrever o melhor livro argentino da minha vida

Estabeleci apenas uma meta para este 2017 recém-sepultado — ler 50 livros. Numa conta simples, a missão era completar um por semana. Deu certo.

Em certos momentos do ano, me dividi entre trabalho, estudo, três projetos simultâneos e (surpresa!) uma vida pessoal. Terminar dezembro com a meta concluída, portanto, foi um pouco surpreendente: basta ler ao menos 30 minutos antes de dormir e, tã-dã, assim você lê para caralho.

Mas este não é um texto motivador sobre técnicas de concentração ou algum outro macete googlável. Escolhi outro clichê. Qual foi o impacto dessas 11.699 páginas lidas em 2017 na minha forma de enxergar as outras pessoas?

em.pa.tia (s.f.)
capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.
psic. processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro.
soc. forma de cognição do eu social mediante três aptidões: para se ver do ponto de vista de outrem, para ver os outros do ponto de vista de outrem ou para ver os outros do ponto de vista deles mesmos.

Nossa era de informação líquida (perdão, Bauman), com excesso de estímulos nas redes sociais e no WhatsApp, nos entrega conteúdos vagos, imprecisos e truncados milhares de vezes por semana. Sabemos cada vez mais sobre nada. Especializamo-nos na leitura dinâmica de títulos e legendas de fotos. E este é o cenário sem contar a discussão estéril a respeito das fake news, afinal textos suficientes sobre isto sobrevoaram o nosso Facebook em 2017.

Sou jornalista, trabalho na redação de uma empresa de comunicação, e em 2017 testei ler menos conteúdo jornalístico nas horas vagas. Passei reto por notícias, análises, artigos de opinião e flagras de Neymar com Bruna Marquezine. Percebi que nunca tive uma noção tão grande da big picture, continuando suficientemente bem informado sem me contaminar pelo excesso de noticiário. E notei o óbvio: o mundo não muda de um dia para o outro.

Com menos notícias brutas — dólar cai, bolsa sobe; doleiro delata, deputado nega; Trump surpreende, Abbas lamenta —, ganhei o tempo necessário para ler aqueles 50 livros do primeiro parágrafo.


E a parte sobre empatia?

E com os 50 livros no lugar das 5.000 notícias ignoradas, ganhei bagagem para lidar com mais maturidade com as outras 5.000 notícias que enfrentei. Adotei formas de contestar, conheci novos jeitos de pensar. Devo dar o mérito aos escritores que criaram as centenas de personagens cujas histórias me embalaram durante o ano. Ainda não encontrei um jeito mais fácil de desenvolver empatia do que mergulhar em uma narrativa bem construída.

A definição de Umberto Eco é bastante adequada:

“Aos 70 anos, quem não lê terá vivido uma só vida: a própria. Quem lê terá vivido 5 mil anos: estava lá quando Caim matou Abel, quando Renzo casou-se com Lúcia (no romance de Alessandro Manzoni), quando (Giacomo) Leopardi admirava o infinito. Porque a leitura é uma imortalidade de trás para frente.”
Михаи́л Булга́ков (ou Mikhail Bulgakov para os menos íntimos)

Ao ser confrontado com Cains e Abéis e Renzos e Lúcias e mestres e Margaridas, aceitar diferenças é obrigatório para quem pretende ir à próxima página. Descobrir o conceito de fukú ou constatar os problemas do Partido Comunista tcheco não mudará nada no leitor que não se sensibilizar minimamente com as histórias de Oscar Wao e Ludvik Jahn. E quando, na vida real, você se deparar com pedaços de Oscar e Ludvik nas pessoas, obviamente estará mais preparado para entendê-los.

Para aumentar nosso raio de empatia, um caminho é tentar fugir do domínio da literatura anglófona. Dos meus 50 de 2017, 18 foram escritos por autores nascidos nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Eles dominam as estantes das livrarias e são as primeiras opções em qualquer site, afinal. Ainda assim, as três obras que mais gostei (avaliação pessoal e intransferível) vieram da Rússia, da Argentina e do México.

Usemos a globalização a nosso favor. Narrativas mudam a cada autor, a cada região, e trazem novas linguagens, dinâmicas, cidades, costumes. Na era dos eReaders, das edições luxuosas de autores lado B, dos sebos on-line e dos sebos cult, deixemos John Green para 2019. Vamos desbravar o mundo.


Meu top 10 de 2017. Para explicações, vamos a algum bar

E cinco menções honrosas: A noite escura e mais eu (de Lygia Fagundes Telles), Correções (de Jonathan Franzen), Esperando Godot (de Samuel Beckett), Ficções (de Jorge Luis Borges) e Lampião & Lancelote (de Fernando Vilela)

Juan Rulfo, o mexicano que só precisou de um romance e um livro de contos para fazer história

10. A brincadeira (de Milan Kundera)

9. A estrada (de Cormac McCarthy)

8. O filho eterno (de Cristovão Tezza)

7. Pais e filhos (de Ivan Turguêniev)

6. Bestiário (de Julio Cortázar)

5. A fantástica vida breve de Oscar Wao (de Junot Díaz)

4. O estrangeiro (de Albert Camus)

3. Pedro Páramo (de Juan Rulfo)

2. A invenção de Morel (de Adolfo Bioy Casares)

1. O mestre e Margarida (de Mikhail Bulgakov)

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