Aroma de café

Estava observando a cor do café. Sempre fazia isso antes do primeiro gole. O tom escuro do líquido lhe dava conforto mental. Era como se seus pensamentos fossem sugados para dentro da xícara e absorvidos pelo café. Aproximava a xícara do nariz para sentir com mais intensidade o cheiro delicioso do café. Era um hábito ou um ritual? Não fazia diferença. O importante era o prazer incomum que isso lhe causava e a solitude do momento.

Depois do primeiro gole, percebeu que o dia estava ganhando as mesmas cores do seu café. Era fim de tarde e o Sol poente, antes de sumir completamente, ainda banhava o ambiente com as cores rosa e laranja.

O Caffè Sabatino era um lugar simples, mas de atmosfera acolhedora. Tinha em sua arquitetura, embora não fosse ostensiva, a assinatura de uma época gloriosa para a arte. A mesa redonda e desgastada na qual estava sentado tinha riscos na superfície da madeira que eram marcas do tempo. Viu um risco que tinha o formato de um coração; pensou que pudesse ter sido feito por um casal apaixonado ou por alguém cujo sentimento nunca foi correspondido.

Ele sempre apreciou uma das facetas mais curiosas da arte. Tratava-se do fato de que — muitas vezes — quem se colocava diante de uma obra poderia interpretá-la de uma forma mais interessante do que a de quem a colocou ali.

O aroma de café combinado à solitude daquele momento era a arte da paz.