Duas Voltas

Um conto de terror sobre um amor distorcido.

É importante para mim que leia essa carta em menos de dez minutos. Pode me fazer esse favor?

Estou sentado em uma cadeira quebrada no apartamento ao lado do seu. Tão perto que em algumas noites posso ouvir sua respiração. Agora por exemplo, parando de digitar te ouço inquieta, revirando na cama fazendo ranger a quarta madeira do estrado. Contando da esquerda para a direita, claro.

E será a última vez que te ouço através da parede. Uma pena.

Estive sempre por perto, mas tomei o cuidado de não ser notado. Não deixei que percebesse nenhuma coincidência . Afinal “não existe acaso”, correto? Você acredita em destino astrologia e todas essas coisas intocáveis. Sei disso porque te conheço muito bem. Minha amada, minha princesa intocável. É bobagem querer que me ame como eu a amo. Aceitei isso. Seu ódio virá quando perceber o que fiz com sua vida e sabe o que é melhor? Não ligo mais.

Se quiser pare, termine de tomar esse café (com dois saquinhos de aspartame, mexido cinco vezes antes de você tomar) e depois continue a leitura minha boneca. Respire fundo. Agora continuemos.

Para começar digo com orgulho que fui seu anjo da guarda. Seu destino. Isso mesmo, eu tomei decisões por você, te protegi de coisas que você nem imagina, salvei sua vida mais vezes que consigo lembrar. Não espero que seja grata, só que lembre que fiz tudo isso por amor.

Confesso que parte das decisões que tomei por você não foram tão heroicas. Sou ciumento, sabe? Dois exemplos rápidos: a morte do Lucas não foi acidental. E o Felipe sumiu, mas não da forma que você imagina. Quase tive pena dele. O desgraçado comprou orquídeas para você, acredita? Assisti elas murcharem no meu apartamento. O babaca não fazia nem ideia que suas favoritas são as rosas. E sei disso como conheço suas comidas favoritas, perfumes, cores, músicas, tudo.

Talvez tenha se perguntado porque não me declarei antes. Sou tímido. E feio. Muito. Não conseguiria conviver a ideia de que você me rejeitou. Preferi viver na sombra da sua vida. Cuidar de você de longe e, modéstia a parte, fui muito bom nisso.

A vi pela primeira vez, pasme, cerca de dez anos atrás. E ainda lembro do perfume do seu cabelo. Condicionador OX, como descobri depois. Estávamos no metrô, na linha verde. Ainda não existia linha amarela naquela época. Era três e cinquenta e dois em uma tarde que você estava muito triste. Foi demitida da Hering por causa da inveja da sua gerente. Amélia era o nome dela. Esnobe olhava para você por cima dos óculos vermelhos de armação pesada. Cuidei dela para você, minha boneca. A primeira coisa que ela perdeu foram os dois olhos azuis esnobes. Uma colher de sopa quase resolveu a questão. Tive que terminar com a ajuda de uma tesourinha. Não foi nada bonito, mas adoro lembrar.

Voltando ao metrô, assim que percebi a deusa que estava há uns metros parei de ler meu jornal. Só conseguia olhar para você. Achei que seria só uma paixão de metrô, mas me enganei. Dali em diante não haveria mais ninguém, só você. Cada traço no seu rosto, cada pinta, o jeito que o seu cabelo caia sobre os ombros, até mesmo a pequena imperfeição no lóbulo da orelha esquerda.

Você tinha olheiras fundas e estava tão abatida. Não sofro mais com sua dor, mas lembrar da minha princesa naquela época dói muito. Sem dúvidas perder aquele emprego foi a melhor coisa que já te aconteceu. Imagina como fiquei feliz quando conseguiu a vaga naquele escritório da Berrini.

Haviam duas outras secretárias, deve lembrar. Uma virou sua amiga íntima, a Mariana. A outra adoeceu e sumiu. Chato não? Toda a inveja que ela tinha carregou para o cemitério que chamo de quintal. Pior que não consigo recordar o nome dela. A chamava de “A vadia falava mal da minha boneca para o gerente”.

Aliás esse mesmo gerente te promoveu uns meses depois, mas não pelo seu empenho no cargo. Não senhorita. Foi porque o filho da puta queria você. Foi o jeito dele te agradar. Eu via de longe como ele te olhava e sorria. Mesmo anos depois ainda sinto um ódio incontrolável quando lembro dele tocando no seu ombro. Trabalhei meses sobre ele, preso, dopado e dia com menos para arrancar. Tenho tudo gravado, pena não poder assistir comigo.

Naquela época eu estava satisfeito trabalhando na faxina do escritório. Curioso como esse tipo de funcionário muitas vezes é invisível para os demais. Se te disseram que a galera da faxina era simpática foi só para se sentirem humildes. A verdade é que ninguém dava a mínima e isso era perfeito para mim.

Foi mais ou menos naquela época que você começou a dar em cima do Lucas. Eu mesmo não acreditei que minha boneca inocente estava desejando outro cara. Não era justo comigo, ele não merecia seus sorrisos, seus beijos. Ele nem sabia quem era você, mas você, princesa, você se jogou nele. Foi nessa época que me arrependi por ter dedicado tanto tempo a uma vadia qualquer. Senti o peso de todas as mortes, todo mal que causei a outros para proteger você. Algo em mim começou a te odiar e esse conflito quase acabou comigo, mas sobrevivi e me fortaleci. Não pude deixar de te amar, menos ainda cessar meu ódio por você. Sabe, eu fui além do inferno por sua causa. Não poderia me expor, por tudo a perder. Por sorte seu sofrimento deixou de ser um problema. Falando nisso deve ter uma ideia de como lido com aqueles que odeio, não? Espero muito que esteja dentro dos dez minutos de leitura.

Sobre o Lucas, eu queria ver você perder aquele idiota. Queria cada lágrima sua e até tenho um pouco dela. Claro que não lembra, mas eu estava lá no enterro dele. Te dei um lenço de pano. Você o encharcou e pediu desculpas, lembra? Era eu. Agora talvez lembre de mim no corredor, ou no escritório. E em tantos outros lugares que você costumava frequentar. Aliás, fui por um bom tempo segurança daquela balada na Augusta que você adora. Era fácil ver com quem você entrava e com quem saia. E com frequência essas pessoas desapareciam. Já notou?

Algumas noites você ia naquele Starbucks da Haddock Lobo com a Mariana e eu ficava por perto, nervoso por me expor tanto. Quase sentia pena quando ouvia você contar para ela que ninguém te ligava quando você passava o número, ou respondia as mensagens no whatsapp.

Preciso ser franco contigo? Eu estava longe de sentir pena. Achava aquilo tudo muito engraçado.

Se conseguiu ler até aqui com certeza está se perguntando se eu que desapareci com a Mariana. É claro. Ela era uma vadia e se empenhava demais em te transformar em uma puta igual a ela. Engraçado. Enquanto digito isso você está resmungando nos seus sonhos. Chamando a Mariana. Desiste meu amor, ela não vai responder nesse mundo.

E a carta está chegando ao final. Está dentro dos dez minutos? Esteja. Vou sentir falta dos seus maneirismos todos. Entre meus favoritos estão o jeito que ajeita seus óculos a cada dois minutos, como coça atrás da orelha quando está nervosa e principalmente as duas voltas que você dá na chave quando tranca a porta de casa. Isso deve dar uma sensação boba de segurança, mas se a chave reserva fica embaixo do tapete não faz muito sentido as duas voltas, né?

De todos os meus péssimos hábitos o mais ousado foi entrar na sua casa algumas vezes. Em nome da discrição passei a colocar um sonífero maravilhoso no suco de manga que você sempre tem na geladeira. Perto das onze você adormece como uma linda estátua de gesso. Eu entro, me deito ao seu lado (tomando cuidado com o barulho da quarta madeira do estrado) e fico ali, sentindo seu perfume. O gato barulhento me atrapalhou no começo, mas ele adoeceu, não foi? Pobre animal.

Teve também uma vez (tremo ao lembrar) que me atrevi a passar a mão pelo seu corpo, mas não tive coragem de continuar. Hoje será diferente.

Eu reviro seu lixo, meu amor. Sei todos os seus segredos. Sei que está apaixonada, tem um encontro essa noite, mas ele não irá acontecer. Hoje não é o dia do seu pretendente. Não meu amor, hoje é o nosso dia. Tenho na gaveta dessa escrivaninha uma linda magnum prateada calibre .32, bem lustrada, montada e lubrificada. Tenho em uma caixa seis balas que vão resolver o nosso problema.

Aqui da janela consigo ver o sol raiando. Daqui a treze minutos seu despertador irá tocar e terei que colocar meu último plano em ação. Provavelmente agora seu café já esfriou e você está tremendo. Talvez coçando atrás da orelha. Sua campainha irá tocar, mas você não vai atender. Sou eu, porque atenderia? Você irá correndo até o seu celular só pra descobrir que a bateria foi removida. Antes que possa gritar por socorro terei dado as duas voltas na fechadura e estarei aí contigo. Pronta?

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