Nasce, cresce, sofre e morre

E ao caminhar por dentre os vagões

lotados de pessoas semimortas,

olhos vazios refletindo

o crescente nada

no interior de cada um,

à espera do sinal pra correr,

como cavalos no páreo de largada,

me dou conta

de que a única diferença

entre nós e eles,

é que aqui somos todos perdedores,

a única recompensa

é o doce abraço da morte,

assegurado aos covardes.

Felizes covardes são esses,

que podem se dar ao luxo de recebê-lo.

Ainda acho que todos deveriam

ter direito a um epitáfio,

uma chance de falar sem medo

pela primeira vez na vida.

Meu devaneio é interrompido

pelo grande caixão ambulante

que range nos trilhos.

As luzes do túnel desaceleram.

Os equinos sem esperança se entreolham,

afoitos para sair em disparada,

como se alguém lhes fosse tomar o lugar.

Mas ainda não é o momento.

“Estamos aguardando a retirada de um objeto caído na linha do trem”

Porque até os cavalos tem direito a alguns instantes de glória.

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