O trio

Essa é uma crônica de três amigos: o (mais) jovem, a senhora e o estrangeiro — que poderia ser o título deste texto.

Todos os dias que eu saia da aula, ia pro instituto e encontrava os três saindo para tomar um café ou almoçar (pastel na feirinha se fosse uma quarta feira!), ou encontrava com eles na cantina no meu caminho. Sempre os três juntos, conversando sobre alunos, política ou simplesmente rindo. Tinham risadas muito particulares, aliás. Era possível identificar qual deles estava rindo…
A mulher e o jovem eram mais falantes do que o estrangeiro, que se limitava a rir e a acompanhar os outros dois — até brincávamos entre nós que que eu e uma amiga éramos os dois que falavam mais e alguém fazia o papel do mais quieto. Mas era sempre muito interessante observá-los. Ver um esperando o(s) outro(s) no saguão principal do instituto que trabalhavam antes desses encontros diários.

E aparentava ser uma amizade de anos. Sempre rindo, sempre companheiros nas idas e voltas de cafés ou pastéis. Sempre batendo papo, praticamente sempre uma conversa alegre ou casual. Dividiam matérias que davam na faculdade, geralmente em combinações desse trio. O trio do amor, chamávamos. Tive aula com os três, aliás. E talvez por isso meu carinho pela amizade entre eles era tão forte. Era fofo demais vê-los caminhar ou ver como eles se importavam um com o outro. Claro que, na minha cabeça, eu sempre inventava diálogos e situações entre os três, para preencher essa amizade com mais ‘causos’. Sempre me imaginei tendo uma amizade assim, de anos e com aquela cumplicidade que eles pareciam ter. Por vezes queria me aproximar e participar daquelas conversas — mas seria muito estranho e então ficava na minha, observando de longe.

Há uns dois anos, o mais jovem se aposentou, foi viver a vida e se afastou do instituto. Ainda assim, sempre via os outros dois — e as vezes os três, caminhando pelo campus e tomando o famoso café. Foi uma pequena quebra do que eu costumava ver, um pouco estranho ver só dois daquele trio por ali. Mas as vezes a vida dá umas voltas que a gente não espera né…

No começo desse ano um deles partiu, pra sempre. Aquele velho e famoso trio já não existe mais. Acabou. Isso faz com que a gente tenha que reconfigurar e lidar com o estranhamento de não ter mais aquilo que a gente costumava ver. Fiquei triste pelos dois que restaram, fiquei triste por o que aquele trio representava pra mim (e o elo com meu passado), para o instituto, alunos.

Esta é uma “pequena” homenagem a o que essas pessoas representaram para mim e não somente como professores. Um agradecimento pela amizade deles, que indiretamente me deixava alegre, mesmo não fazendo parte dela.

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