Sobre impedimentos, pactos e a festa do povo brasileiro

A importância da data de hoje é inegável para a história brasileira. Ao menos nesse ponto, acredito que os dois lados concordam.

Contudo, fico extremamente incomodado com esse clima de final de campeonato que se instaurou no país, no qual vale mais comemorar pelo êxito de sua ideologia (seja em retirar o PT do poder, ou classificar a todos que são favoráveis o impeachment de golpistas), do que combater a corrupção INDINSTINTAMENTE e punir aqueles que cometeram crimes — principalmente ao considerarmos que alguns que estão sob investigação figurem entre os “operadores” do processo de impedimento, ou ainda aqueles que mesmo mencionados em delações premiadas, curiosamente não aparecem na grande mídia, como os notórios caciques de um certo partido tucano, que dominam o Estado de São Paulo como uma oligarquia por mais de 25 anos.

Sou favorável ao prosseguimento do processo de impeachment, já que ele possui sim, razões legais que o fundamentam. Diminuir a importância das operações chamadas “pedaladas fiscais” e transformar isso em uma questão meramente política é um equívoco, na minha opinião, que afundou ainda mais a estratégia do governo em diminuir o aspecto político deste processo. Em que pese os fundamentos legais do impeachment, é claro que ele decorre também de um processo politico, que coloca os maiores algozes de Dilma, Lula e do PT no papel de seus carrascos. Referidos algozes não são exemplos de lisura e honestidade.

O que aqueles que são contrários ao impeachment deixaram de notar, em minha opinião (e respeitando o seu posicionamento politico) é que parte da responsabilidade de todo esse processo decorre das ações, por vezes temerárias, tomadas pelo próprio PT e pelo governo. Deixar de enxergar as tentativas de dirigentes do PT em diminuir ou mesmo de abafar as investigações e delações que estavam sendo realizadas na operação Lava Jato, que causaram dentre outros revezes a prisão do senador Delcídio Amaral (não um qualquer, mas o líder o PT no senado) e subsequentemente a sua própria delação premiada, o receio exacerbado de nomear Lula como Ministro da Casa Civil para escapar da ameaça de prisão, e o jogo desesperado de troca de cadeiras e de cargos para tentar se manter no poder demonstram a fragilidade do governo neste processo, que foi muito mais responsável por sua derrocada do que seus defensores admitiriam.

Dilma está certa quando menciona que não paira sobre ela qualquer denúncia ou investigação (ao menos até o momento). Mas ela cercou-se de pessoas e assessores que não possuem tais características, longe disso. E ao entregar-se aos anseios desses conselheiros, acabou traindo seus próprios princípios e deixou-se vulnerável aos abutres que desejavam o seu cargo. Guerrilheira que é, não irá desistir até o final, já que o maior preço a ser pago por ela — e pelo PT, que não é um anjo de candura como muitos defendem — é ter feito um pacto, na sua melhor acepção faustiana, com o mefistotélico PMDB.

A grande ironia de tudo isso é notar esse senso de vitória e comemoração que permeiam diversos grupos sociais e políticos. Não consigo expressar nenhum outro sentimento que não preocupação, receio e incerteza por conta do que ocorrerá nesta segunda. É certo que o mercado reagirá de maneira extremamente positiva na semana que vem, caso o impeachment seja bem sucedido na Câmara, levando o processo para o derradeiro julgamento no Senado (o que já está matematicamente certo). O desenvolvimento da economia, muito mais impulsionado pelo término da paralisação do governo do que por uma política que ainda há de ser construída, poderá trazer uma prosperidade surpreendente ao Brasil. Mas o preço que será exigido no futuro poderá ser alto demais.

Os principais responsáveis pela instauração, prosseguimento e defesa do pedido de impeachment são, em sua maioria, políticos que certamente ganharão muito com o término da hegemonia do PT no Brasil. Políticos como Eduardo Cunha, Michel Temer e Renan Calheiros, todos suspeitos e/ou investigados por diversas irregularidades e práticas de corrupção e pertencentes à mesma agremiação política (PMDB, vejam só!). Ora, se Cunha sendo oposição ao governo conseguiu angariar seguidores e aliados para protelar o seu próprio processo em curso no Conselho de Ética (que estende-se provavelmente por mais tempo do que qualquer outro que se tenha notícia), quais seriam os seus poderes na hipótese de compor o governo, quais chances teriam uma eventual oposição do PT destruído pela derrota no impeachment (e por erros cometidos por eles mesmos), de fazer frente ao Presidente da Câmara dos Deputados?

Isso sem mencionar a influência da mídia em tudo isso. Achei vergonhoso o posicionamento de alguns veículos, como a Globo e a Abril de um lado e a Carta Capital de outro (sim meus caros, existe mídia pró governo também, ainda que em menor grau). Exatamente por essa razão que defendo muito mais um modelo parecido com o americano, no qual os veículos tomam efetivamente partido para democratas ou republicanos. Ao menos assim você sabe qual é o alinhamento político do canal que assiste ou do jornal que lê.

Meus maiores receios estão exatamente nestes pontos. Nesse clima de “vitória do povo brasileiro e de pessoas abraçando-se na Avenida Paulista”, de justiça feita e de “fim da corrupção no Brasil” — quando um dos maiores corruptos é o mesmo partido que abandonou (e tornou-se) o próprio governo, o que percebo como um resultado prático e racional disso tudo é o fortalecimento de políticos com uma agenda conservadora, retrógrada e alinhada com os seus próprios interesses, de pessoas de bem que pouco se importam com o que acontece em comunidades carentes e periféricas (muito distantes de sua realidade), e com o enfraquecimento da democracia no Brasil, não pelo processo de impeachment em si (não há golpe, pessoal), mas sim pela ausência e incapacidade dos dois pólos em compreender seus próprios erros e em perseguir um objetivo em comum.

Opinões e posicionamentos diversos (sejam favoráveis ou contários, desde que civilizados) sempre são bem vindos.

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