Eu posso servir?

Eu já havia confirmado minha inscrição pro “Esperança no Sertão II” — projeto missionário do E-missão (Igreja Esperança) em parceria com o Projeto Conquistando a Terra — quando ainda pairavam em mim dúvidas quanto à minha contribuição no trabalho prático. Eu sentia paz em ir, uma vontade enorme de experimentar o “servir” em um contexto diferente do percebido na minha cidade, mas algo me incomodava e eu imaginava que os meus talentos, mais especificamente a dança, não eram relevantes para a missão.

Comecei a organizar minhas coisas, a me preparar para um período quinzenal de uma rotina de muito trabalho, ainda acreditando que eu correria o risco de ser um peso, não uma ajuda. Mas, em uma das reuniões preparatórias, ouvi algo que muito me marcou. Eram falas do nosso pastor Igor Miguel, que não posso citar por não lembrar as palavras corretas, mas era algo como compreendermos que, numa capital como Belo Horizonte, estamos acostumados com talentos diversos por metro quadrado (m²), mas que em outros contextos, principalmente nos de interior, aquilo em nós que não valorizamos muito, nos surpreende ao enriquecer o próximo numa medida diferente do que imaginávamos. Enquanto ouvia essas palavras, eu desenhava no meu diário de bordo um globo terrestre, com perguntas sobre como uma artista da dança poderia evangelizar… Minutos depois, na página ao lado, desenhei um ônibus na estrada a caminho do nosso destino, São José do Belmonte, PE. As minhas inquietações me injetaram o ânimo que eu ainda não havia sentido — pra quem me conhece sabe que isso é “bem Bárbara”.

Desenho feito no diário de bordo. Foto: reprodução.

A líder da equipe de artes era a Bia Elbainy, bailarina, para a minha alegria. Conversamos muito no trajeto — ainda bem, pq 36 horas no busão requer diferentes ocupações. As experiências missionárias da Bia me aqueceram o coração e, enquanto eu me abria quanto às minhas inseguranças, senti disponibilidade de parceria por parte dela e isso foi como ser levada pela mão por um caminho que me amedrontava em trilhar sozinha.

Também tive instantes de solitude nessas horas todas de viagem (posso ouvir um amém?!) e, num desses momentos, me senti inspirada à criar novamente após quase 2 anos de sequidão. Peguei meu diário de bordo, escrevi em tópicos com pequenas descrições as cenas de uma coreografia que minha mente já estava a dançar.

Na manhã do dia seguinte da nossa chegada em Belmonte, Bia e eu criamos a partir das ideias registradas e, no mesmo dia, apresentamos para o povoado da Inveja (pirem nesse nome), além de apresentar em povoados que visitamos ao longo dos dias de trabalho.

Sabe o que eu enxergo hoje? As perguntas em torno do tema “como uma artista da dança pode contribuir numa missão” são muito pequenas, irrelevantes… Pois, antes de qualquer talento, qualquer vocação ou qualquer riqueza, sou filha de Deus. Aquele que criou o universo, tudo o que nele há e viu que o que ele criou era bom. Todo talento, toda vocação e toda riqueza é, antes de expressão nossa, graça de Deus. Se ele não desse, não teríamos…

Não é incomum pensarmos que o nosso talento vem intrinsecamente de nós mesmos, independente de sermos artistas, engenheiros, professores, médicos, entre outros. Tendemos, na essência do pecado, a nos definir por aquilo que fazemos, enquanto só a graça nos esclarece que somos filhos de Deus e que isso é a única coisa que a nós define e que nos direciona para viver: trabalhando, servindo, cultivando, sendo férteis e espalhando beleza no mundo.

Portanto, a minha identidade não está em ser artista da dança, isso é apenas uma riqueza dada à pessoa Bárbara que tem sua identidade definida por ser filha de Deus, com tudo o que isso significa: participante com Cristo da sua morte e ressurreição, resgatada por aquele que é o “Caminho a Verdade e a Vida” Jo 14:6.

Enquanto filha sendo aperfeiçoada pelo Espírito, posso contribuir com aquilo que eu sou, integralmente. Eu não sou um dos talentos dados a mim por Deus. Sou corpo\alma\espírito, possuo características próprias, aprendizados das experiências vividas, talentos diversos (que podem ir de fazer bolinho-de-chuva até criar um coreografia) e até um tipo específico de temperamento (eita nóis! Deus também tá mexendo nessa parte).

Dançar foi apenas uma das coisas que eu fiz ao servir. Junto com a Bia, ministrei aula de dança para as crianças, junto à outros membros da equipe visitei inúmeros lares com evangelismo, junto à moradoras da comunidade lavei muita vasilha na cozinha (nú!). Também conversei com colegas, fui ouvida, escutei, dei e recebi abraços, lavei banheiros, dentre outros “trampos” diários de uma viagem missionária.

“Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas (…)” Rm 11: 36. Essas são palavras das escrituras sagradas ditas por Paulo aos romanos. Ele, que anteriormente chamava-se Saulo dedicado à perseguição da Igreja e que, após ser resgatado por Cristo, recebeu o nome de Paulo, nascendo novamente, tendo seus talentos, suas riquezas, utilizados de modo à pregar o evangelho de Cristo aos gentios, “os de fora”, que era sua vocação.

Não nos enganemos, nem nos diminuemos pensando que somos algo que, pela graça, somos capazes de fazer. “Quem quiser se orgulhar, que se orgulhe daquilo que o Senhor faz” 2 Co 10:17, e o que o Senhor faz é bom!

“(…)A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” Rm 11: 36

Link do vídeo com trecho da coreografia: https://www.instagram.com/p/BfggKXIHROAWLejguorSOuSvmE_vGzXRwimenQ0/

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