bárbara da silva matoso
Nov 5 · 2 min read

você já é assim como sol. ou como as nuvens. li isso num livro. você compensa o sol pra mim. tipo um dia muito quente. aqueles dias que a gente anda no sol e a pele fica dourada e molhada. a pele fica molhada, a boca fica seca. você é tipo o oasis. tipo a nuvem que entra no meio de sol que tava deixando minha pele dourada e molhada. e tudo fica fresco. enquanto eu caminho penso nessas coisas. não digito. não digito porque eu tô no sol, minha pele tá dourada e molhada. se eu tento digitar eu não enxergo nada. você é um óculos com lente de 3mm que colocaram na minha cara de uma vez e eu saí por aí enxergando tudo melhor. talvez a vida seja boa afinal. talvez não precise desse desespero todo, dessa pressa toda, desse sentimento de deslocamento. no alto da serra, no meio do cerrado, tem uma casa de janelas azuis e plantas muito verdes. as plantas dançam o som da casa. o pó da casa dança. lá fora no quintal tem uma senhora lavando umas roupas. ela carrega entre uma ruga um século de aprendizagem. no ombro dela tem um garfanhoto marrom de antenas verdes. eu queria que ela conhecesse você. tem uma florzinha amarela também. amarela como o Cerrado é amarelo. como o pequi, ou como a minha mãe passando roupa na minha memória com a luz amarela proibida mas que deixava tudo um bocado acolhedor. penso em sentar e falar de você pra ela. penso em você. existe alguma coisa aí bem no meio do seu rosto que me prende. como uma concorrente. eu não consigo fugir. nem gostaria. eu gostaria de chegar mais perto. tão perto quanto possível sem que a gente entre uma na outra e contrarie leis importantes da física. talvez isso tenha acontecido em alguma tarde numa quinta ou sexta quando nossos encontros foram profundos demais e eu fiquei tonta e tremendo demais como o efeito de um antidepressivo. ou talvez não e essas coisas não acontecem mais. vai saber. mas existe alguma coisa bem ali no meio do seu rosto que me prende. enquanto eu caminho penso nisso. nas quatro bolinhas de piercing. nos três tamanhos de cabelo diferentes que você diz que cresceu. penso na pontinha dos seus dedos que tá marcado com as digitais da minha boca. se penso muito na sua boca já me perco. ou nas palavras ou no caminho. ainda não sei lidar. conheci um cachorro caramelo que chama tic tac, eu queria te mostrar ele. conheci uma espécie de borboleta que se finge de formiga pra comer mais, eu queria te mostrar ela. conheci uma cachoeira que as pedras são tão brancas e a água é tão clara que tudo parece ser transparente, eu queria te mostrar ela também. até uma nuvem que vi, que tinha um formato meio estranho, não entendi se era um lagarto ou o duende verde... eu queria que você estivesse aqui.

bdsm — turismo e meio ambiente

    bárbara da silva matoso

    Written by

    socialmente deslocada, politicamente enojada e economicamente fodida.

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade