Isso ninguém vai me tirar

Eu não sei, meu brother. Você vem aqui e lhe recebo de boa vontade. Abro minhas cervejas, carneio as drogas. Esperava mais consideração, que viesse contar boas estórias sobre carne de segunda. Brigas de rua: isso passou em nossas vidas? Acho que tudo passou, não passou? No fim nos tornamos pessoas mais decentes. Sinto até vergonha do passado. Falo com certo saudosismo por não ter mais nada para fazer, não por orgulho. Me sobraram as faculdades, as pernas, os braços. A força para trabalhar. Veja você,: todo dia eu acordo e vou ao trabalho. Agora apanho o ônibus. Vendi o carro. Dizem ser errado dirigir bêbado e, bem, até esse prazer eu perdi. Acho que a lei existe para isso, entende? Para nos manter na linha de alguma decência. Fosse a lei melhor, não teríamos tantos problemas. Agora você caminha até aqui por conselhos, posso lhe dar? A essa altura ela já levou tudo e a outra antes dela. E não sei nem se posso dizer que foi culpa delas, apenas aplicaram sua natureza contra mim e fui burro, mas quem não foi? Ora, sempre tive essa de acreditar que o amor seria o suficiente. Talvez da minha parte, talvez pra mim. Já viu uma luta de boxe valendo um cinturão? Em que ambos querem vencer? Já viu uma luta que o juiz demora para terminar e o cara continua lutando nocauteado? Eu travei esse combate sucessivas vezes e da última vez decidi que não dá mais para continuar. É mais fácil quando se toma uma só e é chão direto. Mas quando o adversário é bom ele sabe dosar a força de forma a continuar batendo e batendo e batendo e batendo. Eu sei. E meu coração estava lá dizendo: continua, continua, a gente pode vencer essa. Eu tentei com tudo que tinha e perdi tudo: cheguei aqui e era só mato. Não se via o mar dessa varanda. Nem existia varanda. Eu trouxe comigo pá e machado, sem pedra para afiá-los. O acaso me fez acertar uma certo dia cavando. Eu vivia em uma pequena barraca capri 4 que herdei de um tio. Isso. Aquela estilo canadense. A moto ali dependurada era a que me levava e trazia da cidade. Construir essa porra aqui foi um inferno. Sem dinheiro, sem ter como transportar as coisas. Ainda assim foi produto de um eu constantemente nocauteado e do meu coração dizendo “é isso ou morrer, é isso ou morrer”. Eu não consegui, na verdade. O engraçado de você subir a um ringue é justamente isso. Ir contra a natureza humana de se defender. Atentar contra a própria vida. Como que você quer que eu te aconselhe? Eu carneio minha cerveja, minhas drogas. Só não mato a vaca, pois preciso dela para cogumelos. A galinha mantém os escorpiões mortos. Com as aranhas aprendi a conviver. Com a dor principalmente. Agora como posso lhe ajudar? Eu não posso. Eu sou um homem que perdeu tudo e nunca mais conseguiu se recuperar. Fiquei aleijado. Ainda que as faculdades estejam todas inteiras, ainda que as forças não falhem os braços e as pernas para carpir. Posso lhe ceder a moto. Agora a corda fica. Ainda vou usá-la. Não escolhi esta vida, mas vou escolher a hora de ir embora. Isso ninguém vai me tirar.