Do Costa e Silva e seus moradores

Não quero dizer nada. Repito, não quero dizer nada, e com essa crônica não quero dizer, somente alinhar dois fatos aleatórios no tempo, mas não no espaço, que por algum eixo cósmico ou por força de algum astro podem estar unidos na mesma consciência.

Recentemente fora aberta uma campanha para renomear o bairro Costa e Silva, bairro que passei boa parte de minha adolescência e que conservo com carinho as lembranças e os contrastes da paisagem, que talvez hoje já não seja a mesma. O intuito da campanha é lógico, retirar de toda e qualquer instituição pública os nomes de figuras grifadas como carrascos no regime militar. Arthur da Costa e Silva, presidente e marechal do exército entre 67 e 69. Veio de suas mãos o decreto do AI-5. Bueno, isso pra quem tem uma pequena noção política e histórica, já basta para compreender as razões profundas da campanha. Agora vamos aos fatos.

Fato 1

A Campanha me veio através de um amigo jornalista, que durante anos refletiu sobre a causa. Ao ver sua postagem no facebook sobre a criação da página, não pensei duas vezes em dar aquele like e manifestar meu apoio nos comentários. Não sou sujeito dotado para questões políticas e tão pouco gasto verbo e saliva defendendo minhas pequenas causas e convicções pessoais, prefiro o silêncio e o bom humor ao criar desavenças de cunho social, mas mesmo assim apoiei a causa. Em primeiro lugar por que é óbvio, quando não lógico, o caráter nocivo de uma ditadura, em segundo, por que conscientizar jovens — claro, adultos também — sobre os males enraizados na história, seus legados e significados precisos, é o primeiro passo para questionar a legitimidade e a herança de cada período, para então captar os mecanismos da roda da história.

Procurei, mais por tédio do que por análise pessoal, visualizar os primeiros comentários que surgiam acerca da proposta. Um dos primeiros, e talvez o que mais me chamou atenção, era de o um rapaz esbravejando, alegando que esse era o menor dos problemas de um bairro, e que outras questões deveriam ser priorizadas. Ok, isso é democracia. Não procurei analisar os outros comentários e nem extrair uma taxa mínima de razão para cada um que se manifestava. Aquele era um pensamento comum, como certamente outros também comentaram com a mesma revolta e sinceridade. Semanas mais tarde descobri porque aquele comentário me tomara atenção, ou talvez por que o rapaz, dentre tantos outros usuários do facebook, chamou-me a atenção. Era irmão mais novo de um amigo meu da faculdade, alguém que eu já tinha visto pessoalmente e trocado pequenos comprimentos, e que pelo sobrenome, relativizou a considerável amizade que tenho com seu irmão. Ao constatar esse fato, procurei não considerar o caráter de nenhuma parte, afinal, aquele pensamento não representava num todo o que aquele sujeito era. Sendo irmão de meu amigo, era sim boa pessoa, assim como meu amigo jornalista.

Fato 2

Semanas atrás no bar meu amigo perguntou se conhecia alguém de confiança para ajuda-lo num furto. Logo me assustei, meu amigo não era dotado para a criminalidade. Antes que eu protestasse e negasse a informação, ele deu a ressalva, de que não era pra ele- o que não diminuía sua taxa culposa de consentimento num delito. Me expressei apenas com os músculos do rosto e deixei que ele soltasse o caso: era para seu irmão, que cansado da mecânica e elétrica gasta de seu carro, desejava ser furtado para que o seguro lhe recompensasse com um modelo melhor com o mesmo valor. Por um instante refleti sobre a raiz daquele ato, talvez as seguradoras realmente cobrassem taxas abusivos por um serviço nem sempre a altura do valor, mas como não entendo de automóveis, mecânica e finanças, preferi não me apoiar nessa tese.

Em principio até ri, que coisa mais patética, tipicamente fruto de historietas da televisão que nem sempre acabam bem. Se ele conseguisse um sujeito para o ato, só desejaria boa sorte, principalmente na hora de encobrir a sujeirada. Por fim respondi que não sabia quem poderia cooperar com o tal delit e sugeri que ele mesmo roubasse e largasse por aí ao léu.

Fato 3

Hoje ele não foi a faculdade. No meio da aula ele me manda um what’s app pedindo que eu falasse com a professora sobre sua ausência e antecipasse sua justificativa: o carro do seu irmão fora roubado. Como falei no começo da crônica: não quero dizer nada. Somente alinhar alguns fatos que podem pertencer a mesma consciência. Espero que meu amigo esteja bem. Aguardo por informações.

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