Me leve para sair esta noite

Não tem certeza da hora, mas a van partiu logo depois da malhação. Só guarda essa noção porque a mensagem de Giovanna fora lida diante de uma cena com Mau-mau e Cabeção no gigabyte, e ao voltar do banheiro, depois de picotar o ingresso, via-se já uma novela de época, e o sofá vazio, sem o primo menor que acompanhava as aventuras do ogromóvel.

Morrer ao seu lado, seria um privilégio imensurável. A frase que começara aquele namoro, agora se desfazia em meio ao rancor. Pouco sabia ele, que a sentença proferida do fundo de seu coração juvenil, tratava-se de uma tradução inesperada de uma música do Smiths, a banda preferida de Giovanna, que ele gozava e pouco conhecia. Ao deitar na cama naquele fim de tarde, desejou que todas as referências a ela se apagassem, mas em seu quarto lhe era impossível esquecer. Não só porque ali foram passado as melhores horas de um relacionamento ou porque pequenos presentes ao longo de 4 anos ainda perduravam pelo criado mudo, estante e guarda roupa, mas porque os pôsteres do pearl jam ornavam meia parede, destacando-se sobre o de outras bandas e fotografias esparsas, inclusive maiores que o quadro do flamengo campeão brasileiro de 92.

Fora ele que apresentara a banda, num ímpeto manipulador de fazê-la mais parecida com ele, e também porque ela reclamava que estava cansada dos teclados sintetizadores do new order, do smiths e do depeche mode. Dito e feito, eram dois namoros que se iniciavam a partir da música e de pints num pub próximo a faculdade. Nos quatro anos, trespassaram juntos todos rituais e clichês, seguindo a risca o script dos namoros: dedicatória no tcc, primeira viagem para fora do país, promessas ridículas, avanços na intimidade escatológica, pertences perdidos um na casa do outro, apelidos cutes, baby talk, essas coisas. A descoberta dela, em saber que amava enfermagem e não publicidade, fora creditada a ele, assim como o primeiro romance que ele publicou, só foi possível, pela felicidade que ambos compartilhavam naquele período. E por isso, tudo estava desfeito naquele 30 de dezembro, data do show do pearl jam em Curitiba, a primeira aparição no Brasil em 15 anos de banda.

Um namoro num acaba em um dia especifico, muito menos por um motivo singular e até banal como a bandana que ela usou na manhã do término, que ele protestou alegando que parecia uma vendedora de acarajé. As coisas vinham se definhando, tudo fora de sintonia, desacordos silenciosos, tédio pela presença alheia e o receio de iniciar outra discussão sobre a possibilidade de um tempo ou um fim. Como dito, um namoro sempre leva dias, semanas e até meses para acabar, e num exercício memória, é muito improvável que se encontre dia xis onde tudo veio a de definhar. To die by your side, já não fazia tanto sentido. Quase concluindo o técnico em enfermagem, Giovanna não se via mais motivada a encarar a carga de estágios em maternidades e a grade daquele último semestre, e ele, com o diploma em jornalismo, trabalhando fora da área, também pouco se encantava com o que construíra para si, e o anuncio do show do pearl jam, foi como um rumor messiânico e niilista, que faria das ruínas daquele casal, um palácio de novos encantos e sabores.

Esse lampejo de esperança duraria pouco, bem como eles imaginavam. Os três estágios até o dia do show foram passados com certo sacrifício: a aceitação do absurdo da notícia da vinda da banda, a reserva dos ingressos e o aluguel da van até Curitiba, junto de outros amigos. Tudo isso fora passado diante da incerteza que nenhum desses fatos poderiam salvá-los daquele fim eminente. E por isso nenhum se espantou com aquela briga no sábado antes do show, que seria numa quinta. Brigaram cautelosos e delicados como sempre, o tom não se alterou mesmo sendo decretado o fim. Ninguém relutou em continuar, ou refez promessas antigas, talvez ambos soubessem que até quinta-feira a tarde, na hora da saída da van, ambos se reconciliassem diante dos amigos que iam até Curitiba. Ambos também imaginavam que depois do show tudo voltaria, as brigas, os desacordos, as incertezas e a infelicidade em seus projetos de vida e talvez por isso ele desligou o celular durante o dia, se dedicou com afinco ao emprego bem remunerado que odiava e só viu a mensagem de Giovanna quando chegou em casa, ciente de que era tarde para pegar a van e abraçando o amargo conforto daquilo que não tem mais volta. Morrer era um privilégio que gostaria naquele fim de tarde, mas dessa vez seria uma morte sem ela.

Somado ao celular desligado, o ingresso picotado descarga a baixo, fora a confirmação, mesmo que feita num impulso, de que ambos não seriam infelizes outra vez um ao lado do outro, e a vida seria possível, com cada um seguindo seu norte, solitário e revigorado. Antes de pegar no sono, depois de três dose de conhaque com coca-cola, sentiu um leve lampejo de arrependimento. Reviu a mensagem de Giovanna “Please, please, please let me get what i want”, apenas isso. Outra canção do smiths que ele bem sabia o quanto significava para ele, assim como aquela que falava que morrer a seu lado seria um privilégio todo dele. Pensou no futuro sem ela, como amarga e dura seria a superação, o tempo para cicatrizar, e concluiu em meio ao início do estado de sono, que a solução seria que ambos morressem, mas o sono já o tinha dominado.

Na rua, indo para o trabalho na manhã seguinte, já conformado com seus atos e com o show perdido, decidiu encarar tudo com um café com leite no bar da esquina. Não sabia como retornar, mas decidira-se logo ao despertar de um sono sem sonhos, que correria atrás dela, que independente do show perdido, tinha um amor irrecuperável e insubstituível em jogo, e o pearl jam, até agora visto por meios digitais, poderia ficar para outra hora, outra vida. Ligaria para ela depois do meio dia, aceitaria as condições e faria sua parte nessa reconstrução, sacrificando o possível para a felicidade de ambos. Estava confiante ao pegar o jornal da manhã para ler as notícias do futebol, o abandono e a incerteza da noite passada lhe foram a lição necessária para recomeçar. Correu até a página de esportes e deparou-se que não houve rodada do brasileirão no meio de semana. Folheu o resto sem pressa e antes fechá-lo e deixar no canto do balcão, a manchete de um acidente com uma van na serra de Curitiba na última madrugada lhe tomou o ânimo, ressecando subitamente os lábios e esfriando com certa dureza as linhas do corpo. Onze passageiros e mais o motorista, nove mortos, dois feridos em estado grave. Não leu a matéria até o fim, o nome da cidade associado a palavra van e a palavra banda pearl jam já foram o suficiente para certificar-se do pior. Deixou o café pela metade e tomou a rua rumo ao hospital municipal. Correu pela calçada rumo a avenida principal, e não olhava para os dois lados antes de atravessar as quadras. E num desses descuidos, se viu diante de um caminhão á 100 km/h numa via de 40, como em casos de cinema, tinha tempo para pensar, mas lembrou da frase que comprara o coração de Giovanna, reavaliou a ideia de um recomeço e se apegou a possibilidade dela estar entre os nove mortos. Piscou duas vezes antes de ser atingido pelo caminhão e ser lançado com força até o canteiro, sussurrando já sem vida, tal como na música preferida dela, que morrer ao seu lado eram sim um prazer e um privilégio, mas que agora ele também perdia.

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