50 tons de preconceito musical

Breiller Pires
Feb 12, 2016 · 4 min read

Há um tipo de discriminação tão difundido quanto ignorado até mesmo por gente que milita com unhas e dentes para combater o racismo, machismo, homofobia, misoginia e outros tantos tipos de preconceito.

Julgar uma pessoa pelo tipo de música que ela ouve se tornou um direito supremo de quem se coloca acima do bem e do mal por haver decretado, em seu minúsculo universo particular, qual gênero musical tem valor — o restante, claro, é lixo.

Existem, obviamente, visões do tipo: Roqueiro? Maconheiro barra pesada. Curte reggae? Maconheiro da paz. Nerdcore? Alternativo hipster — que pode ser maconheiro também, dependendo do grau de abstração de seu respectivo inquisidor. Mas o fato é que as vítimas recorrentes do preconceito musical são aquelas pessoas, geralmente mais pobres ou de origem humilde, que escutam funk, pagode, axé e sertanejo, do brega ao universitário, gêneros tão brasileiros como a celebrada MPB.

Afinal, quem ou o que define uma boa música senão os ouvidos de quem a escuta? Devo ter perdido o bonde da história em que a nata de especialistas instituiu, do alto de suas percepções auditivas apuradas, um padrão de boa música ao melhor estilo “99% lixo, malfeito, mas aquele 1%…”

Para muitos musicólogos, um “som péssima qualidade” é simplesmente aquilo que eles não escutam. Aquilo que não é capaz de ultrapassar as barreiras de sua bolha social. Um pensamento que reflete o de boa parte de uma classe elitista não somente pelo poder econômico, mas pela certeza de que tudo o que foge às suas questionáveis — e preconceituosas — convicções de mundo é desprezível, menor e insignificante.

Muita gente acredita, de fato, que um sujeito que curte sertanejo tal qual um beatlemaníaco aprecia “Abbey Road” ou “Let It Be” sem se dar conta do passar das horas não tem caráter. Faria sentido se os engravatados atolados em denúncias de desvio de dinheiro público estivessem ouvindo Mr. Catra ou Exaltasamba, e não a 5ª Sinfonia de Beethoven, no momento em que a Polícia Federal batia em suas portas. Não custa lembrar que o exímio e ilibado deputado Eduardo Cunha é fã de Led Zeppelin…

Ouço funk, pagode, sertanejo e Safadão. E isso não faz de mim uma pessoa inferior.

Ninguém é obrigado a gostar, assim como nenhuma música está imune a críticas. Quer que uma parcela maior da população se identifique com as músicas do Gil, do Caetano e do Chico ou compreenda as letras em inglês do jazz norte-americano? Faça sua parte. Trabalhe para reduzir a desigualdade social no país e eleja governantes comprometidos com o ensino público (por sinal, achei genial o professor que se referiu à Valesca Popozuda como “grande pensadora contemporânea” em uma questão de prova).

Só não me venha pagar de fiscal do iPod alheio, muito menos de órgão regulador do mainstream nacional.

Quando o cantor sertanejo Cristiano Araújo morreu depois de um acidente de carro, timelines de todo o Brasil foram inundadas com expressões de preconceito iguais ou piores que as impressas recentemente nas páginas do Valor Econômico (sim, o país nessa situação e um jornal de economia preocupado com o cabelo e os hits do Safadão). “Quem é esse cidadão pra merecer tamanha comoção? Sertanejo, aff… Já vai tarde!” Esse foi um dos comentários que apareceram na minha. Na época, também teve jornalista popstar destilando preconceito, sem qualquer constrangimento ou sensibilidade diante da morte de uma pessoa.

O preconceito musical é grave porque atinge uma parcela da população constantemente subjugada por sua classe social, cor e escasso acesso a direitos primários de dignidade, como educação e saúde. Racismo ainda existe, mas pega mal e pode dar cadeia — embora isso raramente aconteça, na prática. Porém, não pega nada chamar um negro de “pagodeiro de merda” ou “funkeiro favelado”, porque a melodia que escapa do seu fone de ouvido já é suficiente para colocá-lo em seu devido lugar na escala da gentalha malsucedida pelo gosto musical.

Cresci ouvindo funk, rap, Mamonas Assassinas e pagode em um bairro de periferia em Belo Horizonte. O sertanejo remete às raízes da minha família no interior de Minas. Não subestimo nenhum gênero musical. Trata-se de uma expressão de arte, independentemente dos acordes. Para mim, música tem um efeito potente como marcador de recordações. Na minha memória, os ritmos que me devolvem a infância são o do funk, do pagode e do sertanejo de raiz. Confesso, também simpatizo com o Safadão e seu penteado.

E isso não me faz melhor ou pior que ninguém. Isso, na verdade, diz muito pouco sobre mim e menos ainda sobre o meu caráter. Eu não sou masoquista por ouvir mainstream nacional. É apenas música. É tudo música. Abram os olhos, os ouvidos e, sobretudo, a mente.

Breiller Pires

Written by

jornalista, futebolista, mineiro

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