O punho do Rei contra a ditadura: “Os militares me impediram de jogar a final de 77”

Breiller Pires
Mar 31, 2016 · 8 min read
Foto: Pedro Silveira

Mancando da perna direita, ofegante, Reinaldo Lima, 255 gols com a camisa do Atlético Mineiro, me recebe com olhar melancólico e um desagravo como apresentação. “Joelho f…, é assim todo dia. Mas hoje consigo dobrá-lo um pouco. Tá bom.”

As sequelas de lesões que minaram sua carreira povoam boa parte da conversa, à reboque das memórias da Copa do Mundo de 1978, quando se viu no rastro da Operação Condor — aliança entre ditaduras sul-americanas para coagir opositores dos regimes militares. O então camisa 9 da seleção era um deles. Teria ido parar em suas mãos, na concentração brasileira na Argentina, um documento intimidatório da onda repressora. “Medo eu não tinha, porque eu contava com respaldo popular. Não iam me sequestrar ou matar, como fizeram com vários outros brasileiros”, afirma, reiterando sua rebeldia durante o período ditatorial no Brasil.

Reinaldo também fala sobre o envolvimento com drogas, remói derrotas traumáticas com o Atlético, conta o episódio inusitado de uma viagem para Cuba ao encontro de Fidel Castro e não esconde certo rancor com o clube que o reverenciou como Rei nos anos 70 e 80. “O Atlético só me explorou, me sugou até o osso.” Em 2012, ele chegou a postar mensagem no Twitter cedendo a coroa para o novo xodó dos atleticanos: “Abdico do trono de rei do Galo para Ronaldinho [Gaúcho]”.

Seria um ato de nobreza, não fosse o ressentimento que se estende aos súditos alvinegros. “Quem me dá valor são aqueles que me viram jogar. Os outros atleticanos não têm o mínimo de respeito, muito menos gratidão por mim.” Maior artilheiro da história do clube, Reinaldo torce de longe pelo seu Galo, sem o status de realeza que enchia o Mineirão e um dia calou o Maracanã.


Em 1980, na final do Campeonato Brasileiro, você foi expulso após reclamar de um impedimento, e o Atlético perdeu o título. Essa foi sua maior decepção no futebol?

Não. A maior frustração da minha carreira foi a final de 1977, que não me deixaram jogar, contra o São Paulo. Os militares me impediram.

Houve interferência do governo na decisão?

Em 77, a ditadura era explícita. Fui expulso um ano antes, na primeira fase do campeonato, mas guardaram o julgamento. Como o Serginho Chulapa tinha sido expulso na semifinal, resolveram me julgar. Uma força de interesses superior. Eu era o artilheiro do campeonato, fiz gol em todos os jogos, minha melhor fase. Já tinha trocado de roupa no vestiário quando veio a ordem [para não jogar]. Esse foi o dia mais triste de Belo Horizonte: 5 de março de 1978 [data da decisão do Brasileiro de 77].

A ditadura influenciou, três anos depois, em mais um vice do Atlético no Brasileiro?

Em 80 foi outra articulação. O Flamengo nunca havia conquistado um título brasileiro. O Maracanã estava lotado na final, tinha “nego” pendurado no lustre. Me lançaram uma bola no segundo tempo, eu corri e senti a fisgada. Aí veio o massacre da multidão. Duzentas mil pessoas gritando, em coro: “Bichado, bichado!” Eu queria enfiar a cabeça no gramado. Estava sem condições. Aquilo esmagou minha mente. Mas tive a oportunidade de empatar o jogo e calar o Maracanã. Senti o sabor do silêncio, flutuei, foi um prazer. Quando eu sofri a distensão, o Carlos Alberto, que era reserva do Toninho Baiano, gritou: “Calma! Ele se machucou, mas ainda está em campo.” Faltava me tirar. E o juiz me deu um amarelo seguido de vermelho, de graça.

Você comemorava seus gols com o punho erguido em protesto contra a ditadura no Brasil. O posicionamento crítico atrapalhou sua carreira?

Fui perseguido por fazer oposição, mas era preciso mostrar resistência ao regime militar para acelerar o processo democrático. O futebol sempre foi um meio reacionário.

Cartolas da época chegaram a censurá-lo?

No Atlético, não. Aconteceu na seleção. O almirante Heleno Nunes [presidente da Confederação Brasileira de Desportos] e o André Richer [chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo de 1978, na Argentina] diziam para não vibrar de tal forma, não comentar política. No Palácio Piratini, em Porto Alegre, antes da Copa, o presidente Ernesto Geisel virou para mim e disse, com aquele tom de militar: “Vai jogar bola. Deixa que a política a gente faz”. O corpo fascista do país começou a me minar. Não só moralmente, mas com assédio de todo o tipo. Falavam que eu era cachaceiro, maconheiro, homossexual. Inventaram que eu era gay por causa da amizade com o Tutti Maravilha [radialista e produtor musical]. Linchamento moral. Eu não tinha partido, sindicato, nada. Fui massacrado sozinho.

Mesmo após o “conselho” do Geisel, você marcou o primeiro gol do Brasil na Copa, contra a Suécia, e comemorou com o punho cerrado…

Quando o presidente falou, eu fiquei meio assim, pensativo. Mas na hora que fiz o gol não teve jeito. Levantei o braço… E aí já era. Depois do jogo, eu recebi um envelope anônimo da Venezuela, entregue pelo pessoal do hotel, com informações em espanhol sobre a ditadura na América do Sul. Não mostrei nem falei para ninguém sobre esse documento.

Você não temeu por algum atentado?

O AI-5 ainda existia, mas o Brasil vivia uma época de distensão política. Havia um certo relaxamento do governo, talvez até para identificar os opositores do regime, esperar o pessoal pôr a cabeça pra fora e dar a paulada final. Medo eu não tinha, porque eu contava com respaldo popular. Não iam me sequestrar ou matar, como fizeram com vários outros brasileiros. Mas fui queimado em fogueira pública e continuo queimando até hoje.

O motivo de sua não-convocação para a Copa de 82 foi político?

Até hoje eu não sei explicar. Houve muita influência política. A comissão técnica não resistiu à pressão, aos argumentos de pessoas que não me queriam na seleção. Não gosto de falar de morto, mas o Telê Santana [técnico da seleção na época] tinha posições reacionárias, era implicante com o estilo de vida das pessoas. E o meu estilo não o agradava.

“Quem pede a volta da ditadura militar no Brasil não sentiu na pele o que eu sofri.”

Em 1986, você disse à revista PLACAR que, se o Tancredo Neves não tivesse morrido, iria iniciar uma revolução na classe dos jogadores…

Logo que eu sai do Palmeiras, em 86, fui para Cuba participar do 2º Encontro de Intelectuais da América Latina. Eu era o único jogador do grupo. O Fidel Castro mandou um avião que foi catando comunista do Uruguai até a Ilha. Encontramos o comandante duas vezes. Nessa época, eu estava envolvido com a política, pensava em uma organização sindical para os jogadores. Nossa classe nunca foi centralizada. Até hoje ela é individualista, clubística. Eu conhecia bem o presidente Tancredo Neves. Se não tivesse morrido, ele daria apoio político à ideia. Mas foi apenas uma utopia.

Você sofreu várias lesões no joelho. A violência no futebol era banalizada?

A violência era muito maior. Antigamente o jogador tinha de ter coragem. Futebol era na base da porrada, meu irmão. Beque dava com a mão. A regra não protegia p… nenhuma. Árbitro era fantoche. O campo era ruim, bola era ruim, juiz era ruim. Vestiário? Uma merda. E tinha doping, muito doping. Era preciso driblar isso tudo.

Quais defensores foram desleais com você?

Todos. Todos batiam sem dó. Mas um zagueiro-fã do Goiás foi diferente. Marquei um gol e ele veio me cumprimentar: “Pô, que golaço!” [risos]. Mesmo assim, ele ainda me deu porrada pra caralho.

Jogadores da nova geração, como Neymar, têm maior proteção da arbitragem?

O Neymar é corajoso, vai para cima, toma pancada. Mas, se fosse em minha época, já o teriam quebrado. A porrada era de rasgar. Era pra f… mesmo! E a torcida delirava com essas porradas.

O rigor dos árbitros e os avanços da medicina poderiam ter evitado seu fim de carreira precoce?

No meu primeiro Brasileiro, em 73, eu me machuquei, com 16 anos. Do terceiro em diante foi só injeção: Pá, pá, pá! Uma conduta médica arcaica que me comprometeu. Antes, jogador era tratado como um peão qualquer. Parei com 29 anos. Eu não aguentava mais jogar e acordar cheio de dor. Era dor de osso, que dava febre. Se jogasse hoje, eu completaria minha obra.

Você foi vítima de negligência médica no Atlético?

Cheguei ao Atlético em setembro de 71. Em fevereiro de 72, os caras já operaram meu tornozelo. Perguntei antes da cirurgia: “Vou operar por que, doutor?” Ele não soube explicar. O cara acabou comigo. Depois das outras operações, de 73 a 75, foram dois anos de infiltrações, com o joelho desse tamanho [une as duas mãos formando um círculo]. Não tinha consciência nem autoridade para contestar. Eu era menino. O médico posicionava a seringa e injetava a droga: 200 miligramas de corticoide e 50 de Lasix [medicamento diurético] por dia. Era “bum!”, “bum!”, uma loucura. Fiquei com um derrame no joelho.

Ex-atleticano fala sobre a perseguição que sofreu por parte do regime militar

E na seleção, você também jogou com dores?

Na seleção eu só treinava de calça para esconder o inchaço do joelho. O [Cláudio] Coutinho me bancou. Se fosse outro técnico, me cortaria. A Copa do Mundo acabou em julho. No começo de agosto eu já estava em Nova Iorque para operar de novo. A cabeça da tíbia estava com artrose total, de tanta agulhada que eu levei no osso. Era só encostar no meu joelho que ele inchava. Eu ainda joguei mais oito anos com a perna dura; só 70% de flexão. Quando eu caia em cima dela, descia suor de dor.

Ao contrário da maioria dos jogadores, o futebol não lhe dava prazer?

Futebol só me deu prazer até a Copa de 78. Depois disso, foi muita dor. Ali começou outro processo: Voltaren [anti-inflamatório]. Aqui [bate com a palma da mão nos dois braços] não entra agulha. Há mais de dez anos, sinto dor na hora de dormir. O músculo está calcificado, de tanto Voltaren, dessas p… de remédio para tirar dorzinha. Essa é a herança que o futebol me deixou.

O uso de drogas surgiu para tapar o vazio da aposentadoria forçada?

A última vez que eu usei cocaína foi em 1996, porra. Há mais de 15 anos eu não dou um “tiro”. Não quero falar de droga porque ela já não faz parte da minha vida. Essa coisa de justificar que é usuário para tapar vazio depois do futebol é discurso de médico e psicólogo. Uso de droga é algo muito individual.

Hoje em dia, como anda sua relação com o Atlético?

Sou o maior artilheiro do Atlético, mas persona non grata no clube. Eu recebi o Galo de Prata [honraria concedida a personalidades atleticanas] com meu nome errado. O Atlético nunca me apoiou em nada, nem quando eu tive problema com drogas. Só me explorou, me sugou até o osso. Não é o clube, mas sim as pessoas que o administram. Tem gente na diretoria que se acha dona do Atlético.

Você não se sente respeitado pelo clube?

Em Belo Horizonte, as pessoas têm uma imagem negativa de mim. Pensam que eu sou marginal, bandido, traficante. É uma decepção. Um clube é construído por seus ídolos e glórias. Sou uma pessoa simples, não imponho minha condição de Rei. Cansei de ser barrado no Mineirão. Eu falava para o segurança: “Eu sou o Reinaldo, olha minha placa ali”. Maradona fez muito mais merda do que eu e é um Deus na Argentina.

Nem a torcida atleticana lhe trata como Rei?

Quem me dá valor são aqueles que me viram jogar. Eles nunca mais verão nada igual, está no imaginário. Os outros atleticanos não têm o mínimo de respeito, muito menos gratidão por mim.

Não sonha mais ser presidente do Atlético?

Eu tinha esse sonho. Queria montar uma equipe que jogasse igual ao time em que eu joguei, de 1977 a 80, com os mesmos conceitos táticos. Mas não quero mais saber dessa política mesquinha de clube. O Atlético nunca me deu valor.


Entrevista originalmente publicada em setembro de 2012

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