Relatos perdidos de um baixinho cinquentão

Foto: Alexandre Battibugli

A melhor entrevista que fiz em todo período de Placar foi certamente com Romário, que hoje completa 50 anos. Editar duas horas de uma conversa regada a sinceridade, relatos de cenas lamentáveis e palavrões, exigiu boas doses jornalísticas de desapego.

Vários trechos da conversa ficaram de fora do material que acabou sendo publicado.

Foto: Alexandre Battibugli | Entrevista: Breiller Pires

Vasculhando os arquivos por ocasião do aniversário do Baixinho, achei algumas pérolas perdidas:

VELHA MODÉSTIA
Essa forma de ser, de falar de frente, é minha marca. Às vezes alguns me perguntavam: “Você fez dez gols por que tava fácil?” “Não, fiz dez gols porque eu sou bom mesmo.”

JORNALISMO E ASSESSORIA DE IMPRENSA
Eu não era e nem sou induzido por ninguém. Você é repórter, pô! Vocês induzem o cara a concordar com vocês. Hoje em dia, você sabe, é uma dificuldade pra marcar entrevista com jogador. Até chegar nele são uns sete, oito caras, até a mãe aparece. Tem que passar por assessor, presidente, empresário e a casa do c… Como jogador, eu não tive porra nenhuma de assessor. Sempre falei o que quis e com quem quis. Podia ser da Globo ou o cacete.

“Se fizesse o milésimo, eu daria uma volta olímpica com a camisa do Vasco e pegaria uma do Flamengo pra sair balançando no Maracanã.”

FLAMENGO x VASCO
Tenho uma relação com a torcida do Flamengo que é difícil de entender. Eu comecei no Vasco, acabei no Vasco. Fiz o gol 999 no Flamengo, quase fiz o milésimo. Eu entrei pra fazer dois gols. Se saísse o milésimo em cima do Flamengo, teria um gosto ainda mais especial para mim. Já tinha tudo programado. Eu daria uma volta olímpica com a camisa do Vasco e pegaria uma do Flamengo pra sair balançando no Maracanã, como forma de gratidão por tudo que esses caras fizeram por mim. Tenho um carinho muito forte pelos rubro-negros.

PROPINA PARA ORGANIZADA DO VASCO
Tinha gente na torcida do Vasco que não gostava de mim. Na verdade, não era a torcida do Vasco. Era uma facção, a Força Jovem. Torcedores profissionais, que torcem por dinheiro. Pra chamar teu nome, exigiam algum benefício. Como eu nunca dei nada pra ninguém, muito menos pra eles, e quase todo mundo dava, eles gritavam o nome de todos os jogadores no estádio, menos o meu. Mas tava 7 a 0 e eu tinha feito 6. Aí tinham que me aturar.

SOBRE A CANETA NO MARADONA
Eu não olhava pra cara, não. Eu olho pra perna. Abriu, eu boto. Era assim que funcionava.

NÃO DEU PRAIA
Tive proposta do São Paulo, do Corinthians e do Palmeiras. Mas nunca quis jogar em São Paulo. Longe demais da praia.