A perda – 2/9/2018

A gente perdeu tudo, mas ainda temos um ao outro
Fico pensando se digo desastre, lástima ou tragédia, mas definir o sofrimento parece difícil
Por fim, escolho devastação
Eu disse que te amava de manhã e fiz feijão para semana, feliz e ignorante do que ia acontecer, depois fui a porta da quinta ver as chamas com meus próprios olhos, que era o que podia ser feito
E mesmo à noite o laranja atrás do prédio era impressionante, por entre as janelas, um último por de sol íntimo, nas estruturas
Prometi ao meu sobrinho de três anos que o levaria para ver os dinossauros; as listas com as preciosidades do acervo são imprescindíveis, mas eu penso nas formigas que subiam nos pés sempre que sentávamos naqueles bancos velhos próximos a fonte, na janela do banheiro feminino que dava pro lado externo do jardim, no café horrível e caro da cantina, no boné no achados e perdidos da biblioteca, no barulho das crianças correndo no andar de cima durante as aulas na Lygia Sigaud, na vez que fui com o Rafa ver as múmias – te agradeço por ter me levado, amigo -, no cheiro de incenso na sala da Melvi, no quadro de avisos com papéis de 2011, no gosto de carvão na água do bebedouro, no dia que tentamos expulsar a abelha da sala dos alunos (e não conseguimos) e, agora, principalmente no destino dos gatos – que continuam abandonados como antes, mas perderam seu palácio
Aprendi com o feminismo que o pessoal é político e um pedaço de mim queimou hoje, sem misericórdia, disseram no jornal que perdemos tudo, menos a faixada
Nunca fui muito de fotografias e hoje agradeço a todas as amigas que fizeram selfies nos jardins, profundamente arrependida
Os dinossauros podem contar uma segunda extinção e eu a primeira
