Dedicatórias

Campanha, outubro de 2015

Escrever dedicatórias nos livros é só mais um sinal do inesgotável narcisismo e individualismo, a egotrip que não acaba.

Ás vezes acho que sou importante o suficiente pra marcar a história, pra contar a história, pra ser uma voz da minha geração.

Quando não acho coloco meu nome nas coisas - a última tentativa - e fico imaginando se em 2095 alguém vai re-comprar o já pelo menos duas vezes comprado (pela primeira vez por alguém que eu não sei quem foi e pela segunda por mim, ontem mesmo — pelo menos) em algum sebo ler a dedicatório e pensar em como éramos bobos, em como é bonito o amor, difíceis as segundas feiras, pra lembrar que o ano de 2016 começou mesmo foi no dia 15 de fevereiro depois do carnaval.

O carnaval nunca acaba.

Eu acho que eu queria fazer um retrato da gente. Mas um que não fosse tão bonito que demande ser postado no instagram e curtido seguidas vezes. Mais do que retrato, eu quero a concretude das palavras escritas. Ao mesmo tempo privado e público, nesse momento de oito ou oitenta os quarentas ainda fazem mais sentido.

É impressionante como a gente esquece as coisas rápido. Os rostos que tavam marcados na minha memória não estão mais. Aquela pinta atrás da orelha que eu achava que não ia esquecer nunca vai se desfazendo nas lembranças, será que era na direita ou na esquerda? Faz diferença?

As cicatrizes vão se desfazendo na pele, espraiando. As fotografias ainda duram um pouco mais. O que fica mesmo são as dedicatórias.

Você deixou seu diário em cima da mesa e foi trabalhar. Eu li, fui pulando as páginas que não tinham datas até achar meu nome. E achei, achei meu nome de vários jeitos que não queria. Pensei que nós somos mais iguais ainda do que eu já achava. Seu diário era como o meu; as pessoas, os lugares, os eventos e os gêneros são verdadeiros. O personagem principal é ficção. As pessoas são inconstantes.

Dedicatórias são como diários. Leia por sua própria conta em risco.