Dilma, gênero, violência e mais do mesmo

(Na “arte de pedir” diria que é velocidade 8,5 no liquidificador)

“FICA DILMA. MAS MELHORE.

Dilma, seguinte:

Óbvio que não vamos hoje fazer claque pra essa oposição encabeçada por Eduardo Cunha, um homem que só rompeu com o governo depois de ter sido indiciado na Operação Lava Jato por ter recebido propina de 5 milhões de dólares. Um homem que tentou que você passasse por cima dos outros poderes para lavar a cara dele e que agora, na maior cara de pau, age de modo revanchista, de forma completamente hipócrita (e irônico), fingindo ser contra a corrupção (oi?).

Óbvio que não vamos bater panelas atrás do homofóbico do Bolsonaro.

Óbvio que não vamos dançar o Ilariê pro Aécio, ainda repetindo o hit do Lobão “me chama, me chama, me chama”.

Mas, na boa, não dá pra suportar a economia comandada de modo reacionário por Joaquim Levy, a frente de um plano de austeridade que ameaça as garantias sociais e dá azo à crise que os políticos da oposição tanto desejam ver instalada.

Não dá pra tolerar a política agropecuária nas mãos de Katia Abreu, com incentivo ao agronegócio que coloca veneno na nossa mesa todos os dias e não promove a necessária reforma agrária.

Não dá pra aceitar a falta de participação popular e de cidades sustentáveis, nem o déficit habitacional que um equivocado Minha Casa Minha Vida não supera. Gilberto Kassab não é, não quer e não consegue ser o homem para garantir moradia ou melhor qualidade de vida nas cidades.

Não vamos às ruas hoje pra engrossar esse circo de hipocrisia de uma oposição ainda mais corrupta do que o governo.

Mas isso não significa que não iremos às ruas para brigar pelo que vale a pena. Votamos em você, mas não foi um cheque em branco. E você não está sendo fiel a quem te elegeu. Ao contrário. Fica governando pra quem quer te comer viva.

Sabe o que parece?

Aqueles filmes americanos em que a mocinha fica dando mole pro carinha boçal que não quer nada com ela. Aí no final ela se dá conta que aquele amigo massa, que tem tudo a ver com ela, que estava ali o tempo todo enquanto ela tentava conquistar o coração do playboy, é de fato a sua cara metade.

Pois é, Dilma. A sua cara metade somos nós, que te elegemos.

Vira à esquerda e vem logo pra esse final feliz. Demorô.”

Pra dizer a verdade nem sei quem escreveu isso aí, sei que compartilharam e vi pelo facebook. Concordo com tudo, assino em baixo. Também acho que a Dilma precisa se ligar que existe uma esquerda que vai aceitar pouco. Porque a gente como esquerda aceita pouco, apesar de querer o mundo.

Eu boto fé que eu e muitas pessoas que votaram na Dilma no segundo turno acharam que ela podia perceber que ganhar a esquerda ia ser mais fácil.

Só não aguento mais pensar em gênero o tempo todo, absolutamente tudo são problemas de gênero, não tem pra onde fugir. Porque a gente precisa comparar a Dilma ao clichê mais tosco de comédia romântica? Porque a Dilma que é a porra da presidente dessa caralha desse país precisa perceber que na verdade ela tem mesmo é que querer namorar um migo dela que tá na ~friendzone~? Pelo mesmo motivo que as manchetes dizem “Dilma faz faxina no Congresso” (manchetes de primeiro mandato, diga-se de passagem). Porque a menina — no filme ou na vida real — não pode querer o cara playboy boçal? Porque as meninas adolescentes tem que ser tão vigiadas? Porque fazer uma metáfora que desmerece a Dilma comparando ela a uma menina adolescente que não sabe o que é melhor pra ela?

Vamos fazer metáforas melhores.

Sobre o mesmo assunto de outro jeito

Eu fui a primeira a mandar o vídeo da galera em Fortaleza dançando por inbox pra todas as migas e rir. Rir desesperadamente. Rir com desespero porque parece que é isso que a gente pode fazer.

Hoje acordei e achei sério. Acho muito sério alguém escrever em um cartaz que era melhor a Dilma ter sido enforcada no doi — codi. Achei sério porque isso não tem a menor graça. Ignorância, burrice, falta do que fazer, direita fazendo manifestação, tudo isso eu perdoo e acho graça. Eu perdoo e até acho alguma graça a pessoa pensar e falar que seria melhor se a Dilma tivesse sido enforcada. Mas escrever? Não sei se é de agora ou se já acho isso tem tempo, mas palavras escritas tem outro peso. São outro tipo de combinado. Palavras faladas já prescrevem mais do que descrevem, palavras escritas são contratos.

Isso que eu to escrevendo aqui, é sério, é contrato, eu posso até mudar de ideia, mas a gente precisa ter cuidado.

Como alguém pode escrever num cartaz que era melhor se ela tivesse sido enforcada? O cartaz tem todo um poder simbólico dentro da manifestação, é a síntese do que você acha mais importante, é porque talvez não te ouçam quando você grita que você escreve, é pra tirarem uma foto com seu rosto no fundo, pra aparecer na TV. E a pessoa escreve aquilo.

Não que as pessoas tenham noção do que é viver aquilo, eu não tenho. Mas escrever as palavras, “doi-codi”, “enforcada”, são palavras muito cruéis, muito violentas. Não tem a menor graça.

Falta de empatia é outra coisa, não estudar história é outra coisa. Eu ainda não sei bem qual é o nome pra isso, mas eu tenho medo. Eu tenho medo de que alguém possa escrever aquele cartaz com tanta convicção.

Depois de estudar ciências sociais por quatro anos fica um pouco difícil de acreditar em instinto, natureza humana e coisas do tipo. Mas também acho que a Natureza Humana faz parte da nossa cosmologia e dos nossos mitos e por isso mesmo ela existe com letra maiúscula e tudo. A violência está aí. Não sei se nascemos bons selvagens e nos tornamos violentos honrando Rousseau ou se o homem é o lobo do homem e Hobbes é quem estava certo. Acho que tanto faz e que nem faz sentido querer saber o que vem antes — o ovo ou a galinha — o que importa é que a violência existe, mas eu não consigo entender ela assim, de forma tão crua, dura, cruel e desnecessária.

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