o Rio de Janeiro é cruel

todas as poesias que falam sobre acordar me contemplam
que tarefa hercúlea de todas as manhãs
e certos começos de tarde
e quase nunca à noite

queria não ser, só um pouquinho, uns poucos segundos que fosse sair dessa pele e principalmente dessa cabecinha, um pouco oca e sempre preocupada

Juçara já sabia do possível antes de nós
não deu, não dá 
quis dormir no caminho, não deu

me encontra e me diz que quer gritar até ensurdecer
por isso falamos aos berros, cada um precisando sair um pouco mais rápido, antes, mais alto
falamos de inclusão, quem fala baixo não tem vez

beijo seus olhos antes de dormir
27 graus e finalmente os casacos ficam nas cadeiras, que eram pra estudar,
acabam transformando-se em extensões dos armários
Apinhados

aonde é que eu fui me meter?
o caos olímpico amontoa as esquinas, aglomera as ruas
pelo menos criamos o hábito de gritar pelas janelas, em meio aos renovados brasis
continuamos fora temer

o Rio de Janeiro é cruel, separa os amantes por linhas de ônibus infindáveis, não dá pra decidir passar a noite juntos depois das dez
metrô as seis horas da tarde é uma humilhação
diária, cotidiana
apinhados
já tentou votar pra governador nessa cidade?

aquela linha de ônibus que guardou nossos segredos não existe mais, 410 não passa mais na Lapa