A covardia da Região central


Morar na periferia pode parecer uma vida de caos e drama, a televisão mostra apenas nosso lado ruim e finge que se importa com o que acontece conosco. As ruas prosseguem esburacadas, ainda não temos saneamento básico (mesmo que paguemos por este recurso), pessoas que cresceram do nosso lado prosseguem sem noção alguma de uma vida fora dos padrões que vivem seus pais e irmãos.

Escutamos tiros, conhecemos traficantes, acontecem inúmeras brigas e a polícia só aparece pra nos colocar dentro de casa em silêncio e em tocaia.

O governo só nos conhece nas épocas de eleições e como criaturas ansiadas pela atenção, cedemos nosso voto a crença de que eles realmente se importam. Prosseguimos abandonados. Prosseguimos no meio da lama quando chove e principalmente, no meio da solidão.

É solitário saber que a região central não nos pertence. Que as ruas asfaltadas não suportam nossos calçados, que os ventos mornos não carregam nosso riso e que os prédios estão muito acima de nossas cabeças. A lei serve aos burgueses com pratos cheios de promessas de segurança, a segurança do prédio deles se garante no amedrontamento das pessoas que moram na periferia.

As nossas mães periféricas não precisam de produtos de limpezas ou dos seus filhos expostos injustamente em tele jornais, muito menos de uma delegacia da mulher na Região Central que não as escuta aos finais de semana, muito menos na madrugada. Nossas irmãs não precisam de igrejas pequenas, de saias longas, de recato e promessas falsas. O periférico não precisa de político, muito menos de Deus.

Nós somos seres criativos, engraçados, bem vestidos, bem intencionados. Temos a mesma capacidade dos adolescentes de escolas particulares e das mães advogadas com empregadas e carros vermelhos.

Eu moro desde que nasci e me encontro como ser humano em uma sociedade, na periferia. Eu vi cada buraco ser tapado e voltar ao estado normal, meses depois. Vi os políticos, vi adolescentes engravidando, amigos sendo presos, vizinhas fugindo com uma criança de baixo do banco de trás de uma Brasília branca. Eu vi as risadas quando um cara tentou nos vender um amaciante n’uma madrugada. Lembro de brincar na lama em dias de chuva, ficar horas escorregando e correndo, tomar banho quente depois e sair lama até do cabelo. Os pontos positivos e os mais dolorosos cravados como cicatrizes pelos joelhos.

Mas após crescer e encarar a vida como ela realmente é, quem somos nós? No dia da greve geral eu me arrumei e fui pro centro, às cinco horas da manhã a minha mãe acordava pra ir trabalhar, ficar quase duas horas dentro de um ônibus.

A quem a militância quer afetar? As nossas mães periféricas precisam não só serem enxergadas como informadas. Elas precisam de mais do que uma roda de conversa, mas causas direcionadas a elas que são as maiores guerreiras que temos no país. As adolescentes periféricas não merecem enxergar o futuro n’uma saia longa, ou em uma esquina. A quem é direcionado o feminismo? Para quem são esses debates nas casas de cultura?

Morar na periferia não só pode parecer uma vida de caos e drama, ela é. Os noticiários mostram apenas nosso lado ruim e ele precisa também ser visto, mas pensarem nas nossas famílias, também. Seres criativos, engraçados, bem vestidos, bem intencionados largados nos piores caminhos da sociedade e muito mais pra frente, sendo julgados pela pouca fé que tiveram na gente.

Seremos julgados não só pela coragem em nossos corações, mas também, pela covardia do coração da região central.