Paixões de primeira e de segunda classe

Eu me perdi no teu riso

Pois é, eu me perdi

Eu me encontrei no teu grito

— Indigesto fim

Procurei abrigo em outros mundos

Outro mar de rosas me afogou

Soluços transbordando água e flor

Crio um norte, vou para onde o sol me convidou

Em tuas mãos entrego poesia

Em outros braços o meu amor.

Foi a dedicatória que encontrei no livro que ela deixou no meu capacho. Sem data. Assinou apenas com um K.

K de Kênia, a menina que amei no primário, me apaixonei no fundamental, me encantei no ensino médio e odiei na vida adulta. É bem a cara dela se enfiar na minha vida desse jeito três anos depois de desaparecer sem maiores explicações. Mas dessa vez não cairei em sua teia. Dessa vez não quero saber.

Alguém bate na porta. Corro para abrir e paro alguns segundos esperando desacelerar a respiração. Arrumo o cabelo só para o caso de… Ah, é só o Sherman. Não que eu esperasse outra pessoa.

— Cara, tu não sabe quem eu vi na esquina da padaria.

— Não quero saber.

— A Kênia, mano! A Kênia!!!!

Então ela mesmo veio entregar o livro… Ela esteve em minha porta.

— Ela tá mais pálida. E o cabelo dela…

— Não quero saber, cara. Cala a boca.

Puxei suas tranças loiras quando criança, alisei seu channel castanho na puberdade, baguncei sua franja emo de tom preto azulado na fase de rebeldia, e emaranhei seu longo cabelo vermelho pouco antes de me cansar dessas loucuras. Azul, rosa, platinado ou natural, eu não quero mais saber. Será que ela ainda usa shampoo de criança? Aquele com cheiro de camomila era ótimo pro meu cabelo também.

— Pegou a bateria da câmera dessa vez?

— Peguei.

— Estão carregadas pelo menos?

— Olha, eu acho que sim.

Sherman é um bom amigo, mas vive com a cabeça na lua. Vai ver seus óculos embaçados revelem um outro mundo. Magro de pernas finas e dedos longos. Uma vez havia uma campanha na igreja com o título “be the sermon” e ele tratou logo de providenciar uma camisa com os dizeres “be the Sherman”.

O cara se dedica a bobagens. E pássaros. É o que vamos fazer agora, observar e fotografar pássaros. Não sabemos diferenciar espécies, nem conhecemos muito à respeito. Mesmo assim é um bom hobbie.

Kênia não seria capaz de passar um tempo em silêncio contemplando aves, também não compreendia meus silêncios. O que ela quis dizer com aquela poesia? Quero dizer, precisava mesmo voltar três anos depois para falar que ama outro? Típico dela esse circo todo, sempre se exibindo, na sexta série recitou November Rain para mim. Me apaixonei, é claro. Até parece que fui eu o algoz e não a vítima. Melhor conversar pra deixar de pensar nela.

— Sherman, você já amou alguém?

— Só quando era criança. Amei umas doze meninas, esgotei todas as minhas reservas de amor.

— Eu tô falando de algo mais consistente, mais maduro.

— Teve uma menina que eu gostei no ensino médio, eu até escrevi umas poesias mas ficou só nisso mesmo. Olha ali um Bem-te-vi.

— Onde? Mas você já namorou?

— Não. A coragem esgotou primeiro que o amor.

É preciso coragem. Coragem para não me importar com ela ter estado em minha porta algumas horas atrás. Pisamos em folhas secas a maior parte do tempo até alcançar a encosta de um brejo. Brejo Das Almas foi o livro que Kênia deixou que, por sinal, era meu.

Sherman se afasta em busca de novas fotos. Curiosamente alguns pássaros morrem depois que Sherman os fotografa. Ainda ouço seus passos amassando folhas secas. O que ele esqueceu dessa vez? Ah, não. Ai meu estômago!

É ela.

Parada, me olha sem esboçar qualquer emoção. Calça jeans folgada demais, camisa branca e o cabelo… Estilo joãozinho. Seus olhos parecem maiores, mais expressivos, a boca pequena forma uma linha reta. Linda como nunca antes.

Esqueço como se mede o tempo, não sei se foi depois de um segundo ou de uma vida inteira que consegui achar minha língua e quebrar o meu, tantas vezes venerado, silêncio.

— Por que você voltou?

É a primeira coisa que sai.

— Você parece cansado. Sonhei contigo noite passada. Você estava olhando para mim, deitado na minha cama e sem rosto.

Ela ignora minhas perguntas, como de costume.

— Como você sabe que eu estava olhando para ti se eu não tinha rosto?

— Eu te reconheci mesmo sem rosto, isso sim é surpreendente. Ou talvez não seja, depois de tanto tempo juntos te conheço até do avesso.

Do lugar onde ela sentou será que dá para ouvir meu coração explodindo no ritmo de um tamanco de rainha de escola de samba? É preciso coragem, não posso esquecer disso.

— Foi um sonho poético.

É preciso coragem.

— Você já me entregou poesia, agora pode ir pros braços de outro.

Kênia riu e me senti de novo com vontade de puxar as tranças da menininha de cinco anos.

— Você não entendeu. Escrevi aquilo no dia que fui embora pra lembrar de quem eu estava fugindo. Tinha tantas dúvidas e tanta coisa que eu queria conhecer fora daqui. Devolvi porque não preciso do livro se tiver o dono dele.

Isso no meu estômago só pode ser uma úlcera. Um câncer em estágio avançado, com certeza. Tento imaginar meus dedos fazendo cafuné em seu novo cabelo, subindo pela nuca até encontrar o topo. Se eu chegar mais perto vou sentir cheiro de camomila? Bastaria um beijo na boca sabor Trident de melancia para voltar a andar em nuvens. É preciso coragem, eu sei.

— Nesse caso vou deixar de volta no capacho e você pega quando quiser.

Levanto e caminho na trilha de Sherman. Queria estar andando despreocupadamente, mas na verdade estou quase correndo apavorado e de pernas bambas.

— Por que isso agora? Você não me ama mais?

Sua voz me alcança. Tenho certeza que vou me esvair em diarreia. Paro, mas não me viro para olhá-la outra vez.

— Chega de amor. Estou usando as reservas de coragem.

E é isso. De vez em quando amar a si mesmo significa tomar decisões que vão te fazer chorar e ter longas noites de insônia se perguntando se sua decisão estava certa. Quando Kênia me alcançar espero ainda lembrar do Sherman, espero ser o Sherman. É preciso coragem, ele me ensinou, coragem para entender que não existe amor no fundo do poço. Que os desiludidos seguem iludidos Drummond já sabia bem. Quando ela me… Ai, meu estômago!


Inspirado no poema “Necrológio dos desiludidos do amor” de Carlos Drummond de Andrade