Mulher e a Culpa

Não sei por onde eu começo.

Se por aquela vez quando tinha 13 anos, quando eu estava na aula de piano e um cara falou que me admirava e me abraçou… mas não foi só um abraço, ele me prendeu no seus braços violentos e eu não conseguia me soltar, logo após começou a me lamber e a tentar me beijar a força. Ele era tão grande, e eu tão pequena e magrinha que não conseguia sair. Fui correndo para casa chorando para minha mãe e me questionando sobre o ocorrido, e eu só conseguia pensar “mas eu tava com roupas tão farrapadas, calça super folgada, blusão, como isso foi acontecer comigo?” eu me culpava e minha mãe me contou que homens são assim. Talvez essa tenha sido a razão de eu por muito tempo usar roupas largas que não marquem muito o corpo, porque ainda quando as usos, as vezes me culpo sobre os olhares machistas nas ruas.


Não sei por onde eu começo.

Não sei se eu começo pelo ballet, onde um garoto “gay" que dançava comigo, me roubava selinhos e “beijinhos inofensivos" quando ficavamos bem juntinhos nas coreografias. Ele nunca perguntou se eu queria aquilo. E eu? Sinceramente tava sempre cansada de mais para lidar… de novo me culpei, por que ele me achava tão atraente? por as coisas tinham que ser assim?


Não sei por onde eu começo.

Não sei por aquelas aulas de teoria musical e violão quando o meu professor “gostava de mais de mim" e eu ficava com tanto medo de ficar só naquele conservatório com ele. O universo sabe o que eu passei…. E de novo, a culpa.

Até hoje não gosto de receber e não sei lidar com elogios, as vezes a pessoa nem faz por mal sabe… mas nunca me senti bem, começo a me sentir mal e a me diminuir e sinto que não sou suficiente em muitas vezes. Me culpo.


Não sei por onde eu começo.

Não sei se eu começo pelo meu pai que desde da minha infância nunca tratou a minha mãe como ela deveria ser tratada (as vezes, nem eu), quando eu era pequenininha ele bebia muito mais do que ele bebe hoje (é no que ele faz ela acreditar, que ele sempre sabe quando parar e que tem o controle da situação, MENTIRA.) lembro do alívio que senti aos 7 anos quando eles se separaram por um tempo… achei que ela tinha se livrado, eu realmente fui tola a ponto de pensar que tava tudo bem e eu não teria mais que conviver com eles dois juntos. Mas… Eles voltaram, depois de um tempo, tudo voltou a ser daquele jeito, minha mãe chorava e eu ia consolar, aí ela chorava longe de mim, para que eu não o odia-se. Hoje ela se culpa por eu não amá-lo, apesar de eu falar tanto que a culpa não é dela, ela se sente culpada e diz que vai tentar “esconder isso" durante a infância de minha irmã mais nova.

Lembro do reveillon de 2016 quando eu sentei com ela e conversei sobre a possibilidade de uma separação, e ela disse que preferiria “lutar pelo amor". E mesmo eu explicando várias vezes que quem realmente ama não faz isso, ela sempre me respondia “quando você crescer você vai entender", ela sabe que não aceitei as respostas, mas seguimos nossas vidas.

Lembro do meu desespero porcurando minha tia quando não aguentava mais ficar em casa,por causa das brigas dos dois e pela situação caótica em que estava a minha casa… tudo o que ela disse foi “estude e consiga a universidade em outro lugar, siga a sua vida, é a sua chance de sair de casa."

E por aí vai… ele já me bateu, ele já me xingou, uma fase aí, bebemos demais e ele falou que estava a fim de “pegar” uma amiga minha da mesma idade que eu, mas estávamos “bêbados de demais" para comentar no outro dia. E a minha mãe se culpando por eu não amá-lo. E assim vai… Ele hoje em dia sente ciúmes do trabalho dela, trata ela mal e ela RELEVA. Sempre relevou. Porra. E de novo… a culpa.


Não sei por onde eu começo.

Não sei se começo por ontem, quando estava andando na rua e um cara passou por mim me chamando de gostosa e me comendo com os olhos. Mandei ele tomar no cú, mas me senti bem por não ter ligado tanto e por ter tido essa grande reflexão sobre culpa.


Sempre fui uma pessoa que sempre tenta ver o lado bom das coisas, se não fosse assim… teria sido derrotada pelo mundo há muito tempo. Mas a gente não pode deixar isso acontecer.

Existem mais vários relatos que esses, mas talvez eu ainda não tenha coragem de expor, ou talvez eu ainda não saiba lidar.

A gente lida com o machismo todos os dias, TODA HORA. Sabemos o quanto nos culpamos o tempo inteiro, só a gente sabe o que passamos, e eu sinceramente… espero que a revolução feminista venha logo, para que pelo menos, possamos ter o mínimo, que é viver em paz.