“Nessa loteria eu não jogo mais”

Foi como eu finalizei o texto passado.

Acho que é bom contextualizar o que aconteceu de lá pra cá, num curto resumo. Pros que acharam que não, sinto em contrariar, mas eu me fiz de tola mais uma vez, como milhares de brasileiros que perdem todo o amor-próprio quando abrem mão da sua sobriedade fazem diariamente: bebi e, por alguma razão que eu ainda vou lidar cara-a-cara num posterior tratamento terapêutico, mandei mensagem bêbada no whatsapp às 4h da manhã perguntando quando e se iria rolar o próximo make-love. E, amigas, cuzões will be cuzões: recebi um áudio bem elaborado explicando de forma paciente e paternal o porquê do R. não estar querendo um relacionamento. Quando em nenhum momento isso foi colocado em pauta. Quando só tinha eu com a expectativa de um sexo “uau” enquanto havia recebido apenas um sexo “like”, querendo dar uma segunda chance pro prazer, ainda mais considerando que eu não estava em condições físicas e mentais suficientes de ter desempenhado um papel satisfatório e ele, da mesma forma, não foi lá tão esforçado.

Vida que segue, né? Ali, queridas, ali sim eu determinei que tinha chegado no meu limite. O ser humano, se não quiser ser aquele pão embaixo do pé do diabo, deve impôr a si mesmo a jurisdição da sua humilhação. E foi o que fiz. Devidamente bloqueei e excluí o número do dito cujo, como se não lembrasse de cor, e segui em frente. Pra ser bem sincera, no fundo eu sabia que aquilo não passava de paixão mal resolvida, de desejo platônico, de tentação em querer aquilo que estava quase em minhas mãos (o pinto, no caso) e que escapou delas quando eu ainda não estava saciada. Continuei sarrando por aí, com a mágoa pavimentada e a rejeição engolida feito um prato de farofa.


Não sei quanto tempo se passou. Um, dois meses. Eu não fiz a conta. Mas é bem aí, nessa espontaneidade da vida, nesse não-esperar, que as coisas acontecem.

Mais um sábado comum em que o viaduto Santa Tereza prometia uma ótima noite. 1010, eletrônica, catuaba e amigas. Plena que estava, o que viesse era lucro. Eu-mal-saí-do-carro e vi R. atravessando a rua. Prontamente apressei o passo e foquei no caminho à frente, como quem anda de forma cautelosa pra não acordar um cão feroz que repousa atrás. Eu acredito ter ouvido meu nome, mas ignorei. Fui ao encontro de outras mafiosas noturnas e às mesmas me juntei.

Foi dando umas 0:30h. C., uma das amigas, queria comer. Eu e B. a acompanhamos e, dentre um papo e outro, noto que R. come no mesmo trailer que estávamos. Faço bem a pêssega, tento ignorar a coincidência. R. vem e me cumprimenta. No big deal, baile que continua.


“Eu e C. vamos embora, você quer ir com a gente?”. Já estava entorpecida o suficiente pra continuar batendo os pezinhos no chão, mas não ébria como eu planejava terminar a noite. Decidi que não, me despedi e fiquei na companhia de um conhecido, seguindo o ritmo e tentando alcançar o nirvana como a nação tranceira aparenta atingir, sem sucesso.

Pausa pro mijo. Sento num banco, fumo um cigarro. Dou uma olhada no celular… ih, trouxe o celular! Pra quê, né, gente? Parece que as fronteiras do desrespeito com o que eu determinei pra mim mesma não existem. Se você, leitor, pensa que eu liguei pro R., você acertou. Se especulou que foi a cobrar, you got it. Não tem a mínima possibilidade de você imaginar que ele RETORNOU A CHAMADA NA SEQUÊNCIA, INSTANTANEAMENTE, mas foi o que aconteceu. Segue uma tentativa de reprodução do diálogo:

- Ei, “querido”! Tudo bom? Já tá em casa? — lancei, meio que desinteressada, meio que curiosa.

- Opa! Tudo bom! Tô sim, e você? — retrucou.

- Tô aqui no viaduto. Seguinte… tô meio bêbada e caçando um lugar pra dormir. Rola de ser aí? — foi o que eu disse na maior cara de pau existente. Eu não estava bêbada. “Levemente embriagada”, como diria a música, sim, mas não a ponto de não conseguir pegar um ônibus e ir pra casa.

- Claro… pode chegar.

Dois segundos de silêncio.

- R., eu tô indo aí pra transar… que cê acha?

- Beleza. Te espero na porta.


Subíamos o elevador e trocávamos algumas frases comentando sobre o rolê anterior. Entrei no apartamento meio que já íntima me encaminhando para seu quarto, doida pra dar a xota. Sentei na cama, ele se sentou ao meu lado e, num lapso, nos beijamos. De alguma forma o beijo tinha perdido um pouco do encanto inicial — aquele do encontro no Zona Last — , mas continuava bom. Numa breve pausa, fui logo retirando o sapato e as roupas fáceis que me vestiam (piranha já sai de casa preparada, é impressionante!). Ele comentou algo sobre não andar nu ou só de cueca dentro de casa em respeito aos vizinhos. Eu, deitada, observando a cena e vendo o que viria a seguir. R. insinuou um sexo oral, mas a urgência do momento pedia outra coisa.

Como diz uma canção de Djonga com Lívia Cruz, “tamo transando de fato”. Dei, viu, gente? Sentei bonito. Performei como há muito não fizera. Mesmo com o joelho meio atrofiado devido a uma queda cuja vergonha não vem ao caso mencionar, o êxtase proporcionado pela catuaba ou pela imprevisibilidade do momento fez com que o ato engatasse numa sincronia bastante adequada. Demos uma pausa, dormimos um pouco. Acordamos e here we go. Bem aquela coisa de gente safada que vai tentar dormir de conchinha e acaba lançando o bum-bum-tam-tam, sabe?

Contabilizei umas quatro trepadas. Completas, bonitinhas, redondinhas, daquelas que cê enche a boca pra contar pra amiga com direito a squirt e a constatação de que “é, as noitadas tão cobrando da gente”. Ao contrário da última vez em que estive no recinto, também num domingo, eu não estava de ressaca nem com a sensação de tempo perdido. Devo ter saído de lá umas 15h sem ter que dar a desculpa de que tinha compromisso. Me acompanhou até a rua onde eu pegava meu ônibus e, com um selinho, joguei um “até mais, querido”. Descompromissadamente voltei pra casa, pronta pra encher a barriga de docinho e salgadinho numa festa de criança que iria mais tarde.

Esse texto não tem fim, conclusão. Só mais uma das diversas vezes em que o universo conspira pra dizer que a afobação não é um caminho recomendável. Que às vezes a tensão pré-menstrual te espanca. Que, em certas ocasiões, o que a gente quer mesmo é uma segunda sarrada, mesmo que pra constatar que ela é de fato fraca — ou não, na melhor das situações. Que tem gente que foi criado pra acreditar que qualquer demonstração de interesse, por explicitamente sexual que seja, é um carro-de-som com um pedido de casamento. Que é tranquilo botar a cara no mundo, chamar pra transar e ver o que pega, mesmo porque [clichê] o não a gente já tem [/clichê]. Ou pra não dizer porra nenhuma, também, já que nem toda circunstância precisa de um ensinamento no fundo.

Seguimos.


Vai ficar negando like, ô caralho? Aproveita, me segue e saca a parte um dessa história que, até o momento, tá te soando bem desconexa:

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Brenda’s story.