Diferente do que eu publico aqui esse texto não é uma crônica, é só um desabafo. Em breve voltaremos com a programação normal.


Eu sempre fui uma pessoa religiosa. Fui criado na igreja (desde os seis anos de idade) e minha mãe me levava todos os domingos. E eu gostava! O clima da igreja era bom, tinha vários amigos e sempre fui fascinado pelas histórias bíblicas. Homens escolhidos que lutavam contra feras e gigantes, paravam o sol, multiplicavam azeite, etc. Era um máximo!

Meu pai nunca foi de igreja. Ele se dizia católico “não praticante” (termo muito usado no Brasil dos anos 90) e isso, apesar de ser uma questão para minha mãe, nunca incomodou muito a mim e a meu irmão.

Na adolescência veio o meu verdadeiro “encontro com Deus”. Coloco em aspas para respeitar a sua fé, querido leitor. Na minha realidade, nós crentes sempre acreditamos que Deus fala diretamente com a gente. Talvez seja um pouco pretensioso da nossa parte, eu sei, mas esse é o nome que damos.

Eu nunca duvidei do meu primeiro encontro com Ele. E nem dos outros que vieram a seguir. Foi tudo muito real e vivo. Senti esperança, paz e algo a mais que não dá pra explicar. Desse momento em diante nunca mais foi acreditar ou não em Deus. Eu orgulhava de dizer que Ele existe, quer creiamos ou não. Bem, eu já falei que somos meio pretensiosos né? Pode parecer empáfia, mas pra mim nunca foi. Era só certeza.

Até que, depois de tantos encontros, o meu pai faleceu de uma maneira bem repentina. Ninguém esperava e, no cair e no levantar do dia, ele não estava mais aqui.

Eu não preciso falar que esse foi o pior dia da minha vida, mas em nenhuma hora eu culpei a Deus pelo o que aconteceu. Eu sempre entendi que, uma vez que não somos o centro do mundo, essas coisas se dão normalmente. E tudo bem ser assim.

Quando eu vi pela primeira vez meu velho no caixão, eu tive meu primeiro desencontro com Deus. Não era raiva, não era paúra e nem remorso. Tudo estava bem entre nós. Até uma pequena parte da minha família estava lá (até pessoas que nos afastamos durante um tempo). Tudo certo. Eu fui a dezenas de enterros na vida. Seja pra tocar, consolar, ficar com amigos, etc. Não era como se eu nunca tivesse visto ou pensado sobre isso.

O que foi diferente e divisor foi que eu

O que foi divisor foi que eu não conseguir mais acreditar que havia alguma coisa depois daquilo.

E o pior é que isso foi bom. É como se, daquele momento em diante nada mais, nada mais tivesse um grande significado. É como se tudo, dali pra frente, fosse simplesmente descanso. Como se morrer fosse simplesmente… evaporar. E essa sensação foi libertadora. Amigos tocaram várias músicas com temática de consolo de Deus, pastores estavam lá, estava tudo conforme o script. Mas é como se tudo aqui fossem simplesmente distrações do nosso cotidiano e que, haveria um dia não muito longe, que tudo isso iria acabar. Não haveria mais a preocupação com o céu, com o inferno, com o propósito que nós nos damos. Tudo isso iria, de um dia para o outro, se perder em nós e viver um pouquinho em quem encontramos na estrada.

Na pratica, nada mudou depois disso. Eu ainda oro, me sinto vivo quando vou à um culto e tenho sensações que chamo de “sentir a presença de Deus”. Mas, dentro do meu coração, tem uma gaiola com um pássaro azul. Eu tento tampar a gaiola para não escutar ele gritar quando vou dormir. Eu deixo ele lá no fundo pra não vê-lo tanto assim. Mas, à noite, eu o alimento e conversamos um pouco. E isso me faz gostar um pouco mais dele.

Não acho que crença e descrença sejam como água e óleo. Eles se misturam em mim e formam um pouco do que corre nas minhas veias agora. Não sei qual dos dois vai durar mais tempo, mas vou até o fim pra descobrir.

Eu tive um desencontro com Deus, e tá tudo bem.

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