Solipsismo
Chega a ser uma dramédia como o teto de seu quarto, que antes parecia o universo inteiro, agora é só uma parede branca que rebate uma luz feia no guarda-roupa. Ele se levanta pra trabalhar depois da última noite, o que já parecia impressionante o suficiente. Sentou-se sobre o lençol que ainda estava cheirando um shampoo caro que ele não sabia pronunciar o nome.
Ele ainda estava imbuído de toda paixão que sentiu no último mês.
Dessas que a gente inventa que pode encontrar em qualquer esquina. Dessas que a gente nega que sente o coração bater em cada fio de cabelo e ouve o pulsar de cada veia que bombeia duas vezes mais sangue que o normal. Juramos, com a mão na bíblia da nossa consciência, que não é nada. Foi só mais um dia. Só. Mais. Uma.
eu trago comigo os estragos da noite.
No primeiro dia era só uma linda estranha na casa de um amigo.
No outro, ele já podia viver pelo seu sorriso. Ele podia ler um estudo do Bauman em cada nervo se flexionando primeiramente para a direita e depois para a esquerda, como se seu cérebro entrasse em conflito se deveria rir ou não.
Ele nem a conhecia, mas percebeu que aquele sorriso custava caro. Não sábia se era raro, mas sabia que ele não era fácil.
Chet Faker começou a tocar e os impediu de continuar aquela conversa chata sobre as gigantescas luas de Jupiter. A dança inevitável de olhos fechados era a única possibilidade.
we used to be friends. We used to be in a circle.
Ele não se lembra como aconteceu, mas seus lábios estavam presos aos dela assim que suas mãos tocaram seu quadril. Naquele momento ele poderia estar em qualquer lugar, pois o cosmos inteiro estava encarando aquele momento. O tempo e espaço deixaram de ser constantes e o grave da música era a única referencia que seu peito ainda existia. Uma hora ou uma eternidade depois eles resolveram ir para o apartamento dele, a duas quadras dali.
Ele viu sua cama ainda desarrumada daquele sábado preguiçoso e sentiu um remorso momentâneo de não ter dado a devia atenção aquilo quando saiu de casa. Mas não dava. O mundo de repente ficou líquido demais pra ler a cartilha das boas intenções quando alguém como ela aparece.
Foi tudo cru. A luz ficava bonita nela. O vento da madrugada arrepiava a sua coxa mas não secava o suor que corria atrás pescoço e grudava seu cabelo preto na nuca. Aquele quarto, que era tão pequeno, não acabava mais.
o que não tem fim sempre acaba assim.
Durante um mês ele viveu uma picada de escorpião por dia. Doía pensar que ele não a veria. Era como se algo dentro dele houvesse se quebrado. Dava febre pensar que ela podia ser de mais alguém que não dele. Ele queria trancar o Éden e jogar a chave fora, mas nós sabemos que não é assim que se ganha o paraíso. É preciso se perder para se salvar.
Ele cobrou seus direitos e sua razão. Aos poucos, ela retirou seu sorriso e o substituiu por uma onomatopéia distante no seu celular.
Ontem ele a chamou pra conversar na sua casa. Foi a última conversa, ela jurou. “Foi muito bom, mas eu preciso de espaço”.
E ele sentado na sua cama, com o coração na mão, colocou seus óculos e entendeu os motivos.
Aproximou seu coração do seu rosto e viu nele uma lápide com seu nome de batismo.
E abaixo do seu nome, estava escrito:
“Aqui jaz alguém que tinha razão”.