Das coisas das madrugadas da vida…

Eram 4:37 da madrugada e minha vida era uma merda. Desempregado, fazendo bicos em trabalhos nada agradáveis com uma jornada escravizante e um salário de merda que mal dava pra comprar um pão com salame. Vinha andando de volta pra casa, tentando achar uma solução pra vida que levava. Não encontrava. No fone, rolava Maggot Brain do Funkadelic, o solo de Hazel nessa música, tão hipinótico, me fez viajar para um mundo paralelo. Distraído caminhava e nem percebi a aproximação de um cara que me aborda pedindo um cigarro. Não ouvi mas, tirei o fone e perguntei o que ele queria. “Na verdade quero tudo que você tem ai nessa mochila, seu celular e todo o dinheiro da sua carteira”, me disse ele sacando uma pistola .765 debaixo do casaco e apontando bem pra minha cara, ameaçando atirar no meu “rostinho lindo de playboy” caso esboçasse alguma reação. Aquelas palavras me encheram de esperança! Minha vida era uma merda mesmo. Não tinha emprego. Não tinha amigos. Não tinha família. Não tinha uma mulher com quem dividir a vida, os problemas e as pequenas felicidades ou um baseado depois de uma transa. Não tinha nada. Nada a perder. Nem nada em vista a ganhar.

Olhei bem nos olhos do meu algoz. Ele transmitia medo e disposição. Do nariz escorria uma substância branca, devia ser o pó que transforma qualquer covarde em um mártir. “Não tenho nada pra te dar, camarada. Por favor, faça um favor a humanidade, faça-me esse favor. Descarrega todo esse cartucho na minha cara. Deixe ela desfigurada pra não ter nem como abrir o caixão no velório. Prefiro até que não tenha velório. Taca fogo logo e deixa queimar, poupe o tempo e o esforço do serviço funerário e do IML, será um corpo a menos para autopsiar. Um trabalho a menos pro legista. Faça esse favor a humanidade, camarada. Atira. Acaba com essa vida de merda. Anda! Onde está a disposição? Pode ficar tranquilo e calmo que não voltarei do além pra te atormentar. Vai cara. Tá esperando o que pra acabar com essa vida de merda? Vai ser só mais um na sua lista. Ou você nunca matou ninguém? Vamos cara, não tenho todo tempo do mundo para esperar.” A morte, quando bate à porta, te dá uma disposição, uma força que não se sabe que tem. Engraçado, eu não queria viver, mas essa força parece que vem da vontade de continuar vivendo. “Anda cara, bora? De que você precisa pra puxar logo o gatilho? Precisa que eu te chame de filho da puta? Anda filho da puta, acaba logo com essa porra, não to aqui pra jogar nem pra brincar. Porra, seu merda!”

Os olhos que antes tinham disposição e medo, nesse momento me transmitiam mais medo e insegurança do que o de um virgem em sua primeira trepada. Ele abaixou a arma. “Caraio viado, tu é maluco ou o que?”. Saiu andando e me olhando. Acompanhei ele se afastar, atravessar a rua e sumir na escuridão da madrugada. Filho da puta, pensei. Poderia ter acabado com todos os meus problemas, todos os problemas do mundo, ali, numa fração de segundo.

Segui meu caminho pensando em como a vida é breve e ter medo limita toda a experiência e como o sistema nos quer obedientes feito um poodle de madame, te fazendo sentir medo de tudo e de todos.

Acendi um baseado, botei os fones no ouvido, aumentei o som e fui pra casa.