O Despertar da Lâmina

Ainda me lembro de suas batidas. Cada pancada me moldava mais um pouco, e resultava em minha formação.

O planeta era quente. Todo vermelho e abafado, com fogo, fumaça e vapor em meio a pedras e rachaduras.

Em meio à paisagem uma única construção de tijolos vermelhos empilhados formava uma pirâmide altíssima. De uma nave descia um tubo, que entrava na ponta da pirâmide. Descendo nesse duto, dezenas de metros abaixo, paredes com inscrições cada vez mais escuras.
O corredor terminava numa sala grande e quadrada, com veios de lava escorrendo e tochas de chama azul.

Aqui estamos: eu e um homem. Ele me bate e me manipula e, eventualmente, me mergulha numa bacia com líquido branco. Ele é grande e forte, mas parece ser velho, tem pele vermelha e enrugada. 
É assim que meu criador me fez. Uma espada aquecida num forno de chamas azuis, e resfriada em um mágico líquido branco.
Me aqueceu uma última vez e com uma caneta metálica produziu uma inscrição fina. Fui mergulhada novamente para selar meu nome em minha lâmina.

Assim tive minha criação, no planeta Hefaes, mas mãos do ferreiro e colecionador Wulk.

Ele tirou uma bainha de um magnífico couro reluzente, me vestiu e retornou ao tubo. Ele flutuou comigo em uma mão e com sua marreta — de certa forma minha mãe — na outra, em direção à espaçonave.

Enquanto chegávamos no veículo, ele já começava a se distanciar. Tive então o vislumbre de meu planeta: vermelho e fumegante. Silencioso em sua existência solitária no espaço.

Wulk não era um guerreiro, e como um colecionador não tinha objetivo de empunhar-me . Passamos por corredores cheios de armas e trajes raros, até que por fim ele me depositou na parede, em um suporte, onde eu flutuava.

- Seja muito bem vinda Espatheia!

Sabendo agora meu nome, observei — o sair verificando cada arma na sala com orgulho. Permaneci adormecida, sem ver o tempo passar. As vezes Wulk aparecia e olhava as coisas, mas não sei dizer se os intervalos das visitas eram de horas, de dias, ou semanas.

Eu senti tremores. Neste dia algo estava errado. Eu ouvi uma explosão, gritos, e tiros. Repentinamente a porta caiu ao chão e homens entraram levando tudo. Homens feios e deformados, que pilhavam a nave. O líder se destacava entre eles. Era alto e esbelto, com pele — como se fosse camurça — de um tom claro de cor de laranja, tinha feições felinas. Seus olhos amarelos, orelhas grandes e pontudas, e seu nariz perceptivo lhe davam sentidos aguçados. Ele usava um pano na cabeça, e meio peitoral de couro, com calças pesadas e botas de aço grosseiro.

O líder se aproximou e me pegou. Eu não gostei de seu toque, era bruto, ele brandia meu punho com inabilidade.

A caminho da saída guardas apareceram, e com cortes fortes nos ombros e nas costelas ele abateu os defensores. O sangue tingia minha lâmina e eu me realizava assim, meu batismo com 3 vidas, meu propósito estava cumprido. Minha única decepção era aquele que me empunhava.

Os piratas que andavam atrás do ladrão estavam maravilhados com a facilidade com que eu cortei os inimigos.

Nós chegamos ao pedaço da nave que foi explodido.Havia escombros para todo lado e uma aeronave aberta, como um navio, logo ao lado.

Corremos e saltamos para fora da espaçonave em direção a outra, e os sapatos de aço nos puxaram em direção ao convés.
Ouvimos os outros piratas pousando, e eu vi um homem rendido por dois capangas, ele estava cansado e com marcas de batalha.

Era Wulk.Ele quase não respirava.

- Adorei sua coleção. Artefato belíssimo este — o pirata me mostrou ao velho.
- Quem é você? — Ele tossiu — por que fez isso?

- Me perdoe — zombou ele — me chamo Lynx. Agora depende de você: Será meu pirata? Ou será a lembrança de um velho colecionador?

Meu criador baixou a cabeça e negou. Após um suspiro, Lynx avançou e perfurou o peito de Wulk.
Senti dor, medo, maldade. Nunca me perdoaria por isso. Enquanto seu sangue manchava meu comprimento, eu vivenciei o arrependimento, a culpa. Quando Lynx me removeu o sangue escorreu pelas bordas, e gotas caíram no chão como se fossem minhas lágrimas. A cada gota que caia meu ódio e medo cresciam mais por Lynx. Como poderia uma espada virar contra seu dono?
Eu nunca mais aceitaria servir este homem. Vi Wulk, meu mestre, ser carregado e arremessado do convés pra o espaço.

O resto do dia foi de completo luto para mim.

No dia de meu batismo, tirei a vida de meu criador. Pequei contra meu pai.
A noite, quando Lynx se retirou aos seus aposentos, me pendurou ao lado da cama.

- Espatheia… Nunca vi melhor, aquele ferreiro fez um artigo de muito poder.

“Mas não para você! Não pra isso!” eu pensei comigo. Meu corpo parecia preso e sufocado, e minhas inscrições queimavam ao ouvi-lo dizer meu nome.

Nas semanas seguintes os piratas pilharam dois ou três navios, mas Lynx não lutou, ele só ordenava os assassinatos. Não tinham nenhuma honra, nem dignidade. Eu era a ferramenta de um bando de criminosos.

Toda vez que terminavam o ataque os piratas se apressavam.

-Não podemos ignorar os rumores. O corsário pode aparecer.

- O capitão não para, está chamando muita atenção.

Todos tinham essa preocupação, mas quando eu chegava perto com Lynx, eles disfarçavam.
Diziam que o corsário era imbatível, e Lynx quando abordado sobre isso se gabou.

- Que venha ele! O Arque Corsário Illes! Não o temo, meu treinamento com Espatheia tem sido incrível.

Definitivamente. O treinamento comigo era bom, mas eu aguardava o momento em que mostraria que não aceito um espadachim tão indigno.
Alguns saques depois Lynx se descuidou, e uma notícia chegou.

-Capitão! Os radares captaram uma espaçonave em alta velocidade, ela tem sinal militar, parecer ser a Lâmina Cruzadora do Corsário Illes.

Subimos até a parte mais alta do convés e vimos um veículo comprido se aproximando.
Na parte central da nossa nave, um nível abaixo, as placas do chão se acenderam dizendo “Desliguem os motores” e com uma contagem regressiva de 10 segundos.

Aquele pedaço do espaço era preenchido com nada mais do que as duas naves, um planeta gasoso e uma lua pequena.

Os piratas se adiantaram em direção à ignição para acatar as ordens do militar.

-NÃO OUSEM! — Lynx gritou — Avancem em direção ao cruzador do corsário!

Todos os piratas pararam. O navegador relutou com o comando, mas virou o navio em direção ao atacante. Lynx era o único que parecia não ter medo, ele subiu na carranca da espaçonave, quase caindo no infinito do espaço, assumindo uma posição que ressaltava sua aparência felina. Eu estava em sua cintura, aguardando.

A contagem terminou e todos vimos os motores da nave acenderem em chamas azuis. A nave do Corsário era parecida com uma lâmina com uma ponta estreita e brilhante, e na base tinha uma cabine em forma de bolha que certamente protegia o piloto. Atrás da nave vários canos propulsores arremessaram a nave contra o navio espacial de Lynx.

Com uma explosão nos escapamentos e uma velocidade absurda, o cruzador atravessou o casco, fazendo um buraco irreparável.

A nave começou a perder estabilidade e ser puxada em direção à pequena lua. A Lâmina do corsário fazia a volta,e todos os piratas procuravam cápsulas de emergência.

Lynx correu e alcançou uma cápsula ao mesmo tempo que um de seus capangas, que ele chutou para conseguir entrar e lacrar a porta. Lá dentro não havia muita coisa, era pequeno, estávamos no único assento, e alavancas nos cercavam.

Pelo vidro da cabine nós vimos a lua. O capitão lançou a cabine e sentimos um impacto atrás da cápsula. assumi que o navio tinha sido destruído, mas não consegui ver nada.

Pousamos na lua e vimos que algumas cápsulas já haviam caído. Os outros piratas estavam saindo de suas cabines. Todos eles observavam enquanto a nave de Illes descia.

Lynx saiu da cápsula, foi até o meio do caminho e parou.

Da Lâmina Cruzadora desceu um homem fortíssimo, com uma capa azul por cima da roupa de couro batido, e um pequeno círculo de metal no peito. Os cabelos dele eram curtos e loiros, com corte militar, e seu rosto era quadrado e com traços de idade. O medalhão redondo no peito desviou magneticamente todas as balas que alguns dos piratas atiraram.

Lynx viu a cena e decidiu avançar. Ele me sacou e começou a caminhar lentamente.

- O Arque Corsário Illes! Eu estou ficando famoso! Você destruiu a Onduladora. Vai me pagar!

Illes sacou uma espada com a mão direita e um bastão de ferro com a esquerda.

-Eu vou prendê-lo, recomendo que não resista! -respondeu o homem

Ele falava com segurança, sua voz era grave e rouca, e todos os piratas recuaram em resposta ao aviso. Eu pude sentir na pegada de Lynx que ele estava com medo, suas mão suavam e com a força que me segurava suas mãos tremiam.

- Você não vai me pegar — Lynx dizia cegamente — Vou acabar com a lenda do Corsário solitário de uma vez!

-Você pode tentar, mas devo avisar: De acordo com seus crimes, eu tenho permissão para te matar.

Illes assumiu posição de combate, com a mão esquerda a frente com o bastão na horizontal, e com a espada da mão direita, levantada por trás e acima do corpo.

Lynx correu com a ponta das patas em velocidade incrível e logo pulou tentando perfurar Illes comigo a frente. O Corsário me golpeou com o bastão de ferro desviando o golpe para cima, subimos alguns metros no ar. Somente nesse momento eu percebi que a gravidade era baixa.

Podíamos ver que Illes agora estava de costas para os piratas e na mesma posição, aguardando o ataque. Na próxima investida fui usada com mais precisão, deixei que ele me brandisse e cheguei perto de acertar a placa no peito do homem, mas ele bateu com o bastão na perna de Lynx e desviou meu ataque com sua lâmina simultaneamente.
Quando toquei a espada de Illes senti seu poder, sua confiança era incrível. A lâmina estava afiada, mas parecia gasta no comprimento.

O pirata rolou para o lado e se levantou rapidamente, de forma até ficamos todos cara a cara, bem próximos. 
Nesse instante iniciou -se uma sucessiva sequência de golpes meus, o Corsário bloqueava todos, mas comecei a sentir calor. Meu corpo brilhou e vibrou.
Todos nós percebemos que uma aura me envolveu, e quando o Corsário tentou desviar o próximo golpe foi arremessado alguns metros para trás, com um corte no peito que não pude impedir.
- Mas o que… — Tentou dizer Illes
Lynx ficou abismado com o acontecido.

- Você nem sabe o que essa espada é… — O militar continuou — eu vou lhe mostrar.
Illes com alguns movimentos rápidos fez a própria espada brilhar, da mesma forma que eu.
- Isso é ferro de Sorento — estava muito sério enquanto falava — e não é brinquedo para alguém como você!
Os dois começaram um combate feroz, muito rápido, e com rajadas de energia, percebi que meu momento havia chegado.
Comecei a pesar, a pender, a desequilibrar propositalmente, fazendo Lynx perder golpes decisivos. Certamente salvei Illes de sofrer feridas letais.

Num momento de oportunidade Lynx realizou um golpe forte por cima, que encontrou com um corte de baixo de Illes. Encontrei a espada de Illes e consegui ver sua inscrição: “Faithel”
Eu e Faithel estávamos disputando, e o impensável aconteceu. Sua inscrição brilhou e eu vi uma rachadura começar a abrir.

O tempo parou.

Eu tinha um corpo humanoide, como o de uma criança, e à minha frente outro corpo, só que maior e com aparência mais velha. Éramos somente aura, sem feição. Eu rosa e ele azul escuro. Estávamos em um espaço branco infinito

- Espatheia! — O corpo azul disse — me chamo Faithel.
“A espada de Illes” pensei comigo.
- Sim eu sou, e queria agradecer por proteger meu mestre, mesmo que ele seja seu adversário.
Fiquei espantada dele ter me ouvido.
- Ele não é meu adversário. Lynx me tomou de meu dono. Não o sirvo — Disse- lhe

- Pois bem… Como você mesma viu, meu tempo nesse mundo acabou. Não pude vencer seu mestre atual, e não poderei continuar, mas lhe darei a oportunidade de ser livre com minhas últimas energias.
- Agradeço o gesto Faithel — respondi — foi uma honra participar de um combate com arma tão honrosa.
Ele começou a brilhar intensamente e começamos a voltar para a realidade.
- Seja livre Espatheia, seja boa!

De volta ao combate vi a rachadura de Faithel abrir e causar uma explosão que lançou somente lynx metros para trás, Illes somente recuou um passo. Eu voei para cima e cai fincada exatamente em frente a Illes. Todos os pedaços de Faithel fizeram um círculo perfeito a minha volta.

Illes não conseguia entender. Ele abaixou e pegou os cacos de Faithel, que escorreram por entre os dedos. 
Lynx se levantava e começava a se perguntar o que havia acontecido.
Illes deixou os cacos no chão e num acesso de raiva pegou em meu punho e começou a correr gritando. 
Me senti como se fôssemos um só. Nossa raiva era mútua, e de mesma intensidade. 
Mirou no peito de Lynx e me colocou a frente. Me certifiquei que o golpe seria letal, me inclinando em direção ao seu coração.
Ao atravessar a carne, tudo o que eu senti foi o calor da minha exaltação.

A penetração foi em câmera lenta, passei por sua lisa camada de pelos, empurrei a pele até que uma fissura se abriu, e logo após fui cegada por uma onda do sangue mais grosso e escuro que já senti em minha lâmina.
Depois de passar pelo corpo dele me encontrei fincada no solo da lua.

“ISSO FOI POR MEU MESTRE!” Senti um alívio quando fui retirada daquele homem injusto.
- O que… Mestre? — Lynx parecia confuso. 
Ele me ouviu. Eu precisava ser ouvida agora.
- Você está louco — Illes disse — seus saques acabam aqui.
O pirata desabou.
Depois disso Illes me limpou e guardou, e fez todas as obrigações: chamou a nave prisão, amarrou os piratas, cobriu o líder, e até enterrou os pedaços carbonizados de Faithel.

Daquele dia em diante acompanhei Illes na sua missão, ele era um Corsário sem tripulação, e sozinho prendia criminosos sem se esforçar muito, sua experiência era inquestionável.

Assim me tornei útil, justa, fiel, e consegui encontrar alguém digno e que eu me orgulhe de ajudar. Levo em meu pensamento sempre a memória de Wulk, esperando que ele se orgulhe do que me tornei.

Na cintura de Illes, juntamente com seu bastão e a bordo da lâmina cruzadora.

Eu tenho agora minha realização.