Game of Thrones, Agenda Setting e o efeito Lost

Entre cabeças espetadas em lanças, dragões malcriados e mordidas de cachorro, a história épica de Game of Thrones está transformando a indústria e revolucionando a televisão. No entanto, essa reforma não é inédita e segue os passos de outra série inovadora e impactante que criou tendências e, mais de 11 anos depois do primeiro episódio, ainda é debatida e reverenciada.

Produzida por Damon Lindelof, Carlton Cuse e o queridinho de Hollywood J. J. Abrams, LOST foi um fenômeno mundial e, assim como GOT fez com as fantasias, mudou a forma que as séries de mistério são feitas (e assistidas). A trama sobre os sobreviventes de um avião que caem em uma ilha desconhecida alcançou números astronômicos de observadores.

Lost acompanhou a popularização da internet e soube, como nenhuma outra, utilizá-la para seduzir o público. Não demorou para surgirem dezenas e dezenas de fóruns especializados no tema e fãs obcecados que dissecavam cada episódio e pausavam todo frame buscando pistas de onde aquilo ia dar. Os mesmos fãs que se desdobravam para fugir dos spoilers e esperavam a madrugada inteira para baixar o episódio recém-lançado.

Nomeei de Efeito LOST àquela expectativa criada entre os episódios, que incitam milhões de pessoas, entusiasmadas com o desenvolvimento e reviravoltas de uma obra, a debaterem e especularem, tornando essa uma parte fundamental da diversão que a série propõe. A experiência de assistir sem acompanhar os debates, questionamentos e teorias (e memes) produzidos pelo próprio público é completamente diferente da observação neutra. Quem não assiste Game of Thrones hoje, ou não assistia Lost ontem, está em débito com a sociedade e vai sofrer o impacto desse atraso na internet e nas rodinhas de amigos.

Mas por que isso acontece? Maxwell McCombs e Donald Shaw teriam a resposta na ponta da língua. Em 1970, eles formularam a Agenda Setting ou Teoria do Agendamento. Essa tese explica que a mídia, leia-se qualquer meio de comunicação de grande alcance, decide o que vai pautar nosso cotidiano. Essa definição foi posta de maneira ainda mais sucinta, de acordo com os próprios pensadores, pelo historiador Bernard Cohen alguns anos antes. Cohen aponta que a mídia pode não ter êxito em definir o pensamento do público, mas é eficiente em dizer aos leitores sobre o que pensar.

Daí surgiram os conceitos de framing (enquadramento), que se refere ao modo como o conteúdo é apresentado e gatekeeping (porteiro), o controle que a mídia exerce na escolha das informações que serão transmitidas. Acha exagerada e alarmante a existência de um filtro assim? “A internet já deu um jeito nisso, afinal, agora eu mesmo vou atrás da informação que eu quero no lugar que eu quero.”

Será?

Pense em microescala e dentro do seu convívio diário. A internet pode ter piorado a situação.

Nossos amigos de facebook só falam o que a gente quer ouvir e as fontes de informação que consumimos apenas confirmam o nosso viés. O jornalista Walter Lippmann corrobora essa tese no livro Public Opinion, de 1922. Lá, o autor argumentou que os meios de comunicação são o elo dos cidadãos com o mundo real para a assimilação de fatos e ideologias, ou seja, são responsáveis por configurar nossa realidade. (Depois leia os comentários de algum grande portal para ver como essa bolha que você vive é diferente do mundo real)

Já parou para pensar naquela série que você acha incrível, mas vai ser cancelada porque não tem audiência? E aquele filme que é sem graça, mas ganhou os maiores prêmios da indústria? E, pior, quando você não gosta de uma coisa, mas consome porque todo mundo está consumindo? Você já viu a lista de celebridades mais influentes do Brasil segundo a Folha? Concorda com ela?

http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/21476-celebridades-mais-influentes-do-brasil

O que está em alta não é necessariamente bom ou ruim, só é preciso entender que se você está ouvindo falar de algo é porque tem alguém muito interessado em te ouvir falando disso. Para que serviriam os assessores de imprensa e publicitários se não fosse assim?

Consequência, talvez, dos mistérios fascinantes, surpresas extraordinárias ou da agenda setting, o fenômeno que não deixa ninguém esquecer dos sobreviventes do Oceanic 815, vai fazer você ouvir falar muito de Game of Thrones pelo resto do ano, pelos próximos dois anos e, quem sabe, pelas décadas que virão. O Efeito não foi notado pela primeira vez em LOST e não é exclusivo ao Game of Thrones, mas nunca foi tão indispensável e imprescindível nas séries de TV como nessas duas obras.

PS.: Game of Thrones e LOST são absurdamente incríveis e merecem todo o louvor que elas têm recebido. Inclusive, assistam! (que hipócrita, hein Breno!)

PS2: Os pontos semelhantes entre as duas séries vão além dos pontos destacados aqui e se ramificam em outras portas e linhas temporais, mas vou deixar para outro texto.

PS3.: “Não acredite em tudo que está na internet.” — Gandhi

Fontes: http://compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/504/466

https://pt.scribd.com/document/162189290/124578846-Teorias-Do-Jornalismo-Vol-1-Nelson-Traquina-Completo