Por que gostamos de arquétipos?

Ignore as falácias que apontam a fuga do padrão como o ponto alto da trama. Até essa é uma ação habitual. Não nos sentimos confortáveis com o inesperado. Criticamos a morte do mocinho, choramos a vitória do mal sobre o bem e fugimos do imprevisível. Mesmo que inconscientemente, nos acomodamos, reproduzimos e consumimos os mesmos personagens e as mesmas histórias sempre.

O psicanalista suíço Carl Gustav Jung cunhou os termos “Arquétipo” e “Inconsciente Coletivo” e, durante seus estudos, elaborou diversas noções para os conceitos. A interpretação mais propagada de Jung define inconsciente coletivo como um conceito universal e não estabelecido em nossa experiência pessoal. De acordo com Jung, nós nascemos com uma herança psicológica que se soma a nossa herança biológica.

“Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este, porém, repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo. (…) Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo. (JUNG, C. p. 15–16)”

Dentro do chamado inconsciente coletivo, existem estruturas psíquicas, os chamados arquétipos. Jung define o arquétipo como um padrão de probabilidade de comportamento, ou seja, a tendência do indivíduo que se encaixa dentro de determinado arquétipo a se manifestar de maneira definida.

“A estes temas dei o nome de arquétipos, designação com a qual indico certas formas e imagens de natureza coletiva, que surgem por toda parte como elementos constitutivos dos mitos e ao mesmo tempo como produtos autóctones individuais de origem inconsciente. Os temas arquetípicos provêm, provavelmente, daquelas criações do espírito humano transmitidas não só por tradição e migração como também por herança. Esta última hipótese é absolutamente necessária, pois imagens arquetípicas complexas podem ser reproduzidas espontaneamente, sem qualquer possibilidade de tradição direta. (JUNG, C. G., 1978, p 55)”

Segundo Jung, o arquétipo de mãe, por exemplo, repete-se em pessoas de todo o mundo e mesmo mães que não se conhecem e nunca se relacionaram têm atitudes idênticas ou, no mínimo, parecidas. Foi inspirado nesses conceitos que Joseph Campbell elaborou o arquétipo do herói e sistematizou os padrões que sustentam uma história. No livro O Herói de Mil Faces, ele explica como os heróis em diversos enredos da cultura refletem o mesmo comportamento de formas diferentes. Desde a mitologia, passando pela idade média, aos vistos atualmente em filmes, livros e produtos da indústria cultural.

Isso explica porque ficamos tão assustados quando algo surpreendente acontece. Saímos da nossa zona de conforto quando assistimos ao Casamento Vermelho, ficamos perturbados com aquela linha temporal (e o coelho maluco) de Donnie Darko e até hoje alguém encontra um modo de colocar o Jack ao lado da Rose naquela porta que a salvou.

Nós gostamos, porém, quando ocorre um disfarce nessas estruturas. As novelas fazem sucesso e atraem tanto público porque contam a mesma história, com os mesmos personagens, trajetórias e desfechos, mas de formas de diferentes (ou não). A morte de alguns personagens em Game of Thrones assustou, mas será que algum personagem realmente necessário para o desenvolvimento da trama se foi? E o chororô na internet com o suposto desfecho daquele personagem queridinho no final da quinta temporada?

O herói, o sábio, o bobo da corte, entre outros, estão presentes na maioria das obras que estamos habituados a acompanhar. Entretanto, há de se reconhecer o mérito das narrativas que, explorando esses arquétipos, conseguem revolucionar a indústria. O primeiro passo para essa revolução é a fuga dos clichês e estereótipos (não confunda com arquétipos). O protagonista homem branco hétero nem sempre é indispensável (quase nunca é), não é obrigatório que a mulher seja frágil e uma obra com homossexuais não precisa ser focada na homossexualidade.

Além dos exemplos já citados aqui, existem diversas produções, em diferentes mídias, que conseguiram se destacar tirando proveito dos arquétipos e inovando no enredo. Um homem buscando vingança pela morte de sua esposa tem sua história contada de forma magistral em Amnésia (Memento). O herói bondoso e destemido que salva o dia é uma mulher em Mad Max: Fury Road.

Uma das maiores virtudes de uma obra audiovisual é a forma que o arquétipo é otimizado para se adequar ao enredo e como esse enredo é conduzido. Como na vida, gostamos do cotidiano e habitual, mas o extraordinário é que cria os momentos inesquecíveis.

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