O gol qualificado fora de casa precisa acabar

Breno França
Aug 24, 2017 · 6 min read

Quando eu era moleque e estava naquela fase de perguntar o porquê de absolutamente tudo, uma dúvida tão inocente quanto eu sempre vinha à cabeça: como é que as pessoas conseguiam decorar a letra de tantas músicas?

Meus pais — como não podia ser diferente — ficavam atônitos diante da indagação. Como explicar para uma criança que a gente simplesmente decora as coisas e pronto?

Mas além dessa dúvida, uma outra também passou a me acompanhar nos anos seguintes e, por mais que o conformismo que a vida nos impõem tenha me calado durante muito tempo, devo confessar que ainda hoje essa coceira atrás da cabeça de quem sabe que tem algo de errado ainda me acompanha. Trata-se da pergunta: por que os times jogam melhor dentro de casa do que fora?

Na minha cabeça infantil, não havia espaço para considerar a influência dos fatores externos à partida. Para mim era tudo tão preto no branco quanto nos ensinavam na escola (provavelmente pra facilitar a vida dos adultos): se o tamanho do campo, o tamanho do gol, o número de jogadores, o tempo de jogo, tudo isso é igual, não há motivos para que um time, quando fora de casa, jogue tão pior do que quando joga no seu próprio estádio.

Os românticos me diriam que se trata do apoio da torcida ou que jogando em casa você já conhece os ‘atalhos do gramado’. Os céticos diriam que a culpa é do desgaste da viagem ou do desconforto do vestiário. Talvez seja a soma das duas coisas, mas não importa. O que importa é que é fato conhecido que a grande maioria dos times do mundo tem um aproveitamento melhor dentro de casa do que fora, historicamente.

Acontece, porém, que em tempos de globalização, o efeito casa tem sido cada vez mais diminuído. Seja pela velocidade com que obtemos informações de locais desconhecidos ou pela própria facilidade do deslocamento físico, ficou muito mais fácil se preparar para adversidades inoportunas e, portanto, o gol marcado fora de casa enquanto critério de desempate se mostra cada vez mais obsoleto e injusto. Vejamos alguns números:

No atual Campeonato Brasileiro, os visitantes ostentam o melhor aproveitamento dos últimos 10 anos. Até a 16ª rodada, foram 47 vitórias dos forasteiros contra 74 dos anfitriões, além de 39 empates. Isso significa que, estatisticamente, a chance de uma equipe com o mando de campo empatar ou perder é maior do que dela ganhar nessa edição da competição.

Em casos específicos vimos resultados ainda mais claros dessa inversão de vantagem. Na 8ª rodada do Campeonato Brasileiro, os visitantes somaram cinco vitórias, quatros empates e apenas uma derrota. Já na 13ª, resultado ainda mais impressionante: oito vitórias, um empate e uma derrota. O líder Corinthians, por exemplo, tem um desempenho melhor fora de casa (85,19%) do que dentro (72,73%), ambos acima do normal, mas sintomáticos.

Explicações possíveis para este fenômeno não faltam, mas duas merecem ser destacadas:

Em primeiro lugar, o ano vem sendo especial para as equipes que escolheram jogar no contra-ataque. Não é a toa que a palavra da moda na crônica esportiva é ‘reativo’. São times que optam por dar a bola ao adversário, se defender durante o jogo inteiro e buscar a vitória em uma ou duas estocadas no ataque.

Casos como o do Corinthians e do Botafogo são os melhores exemplos disso. Os alvinegros primam pelo sólido sistema defensivo e apostam no aproveitamento excepcional nas finalizações. Partindo no contra-ataque, não é difícil imaginar que eles vão encontrar mais espaços nas defesas adversárias e, portanto, apesar de menos chances, terão oportunidades mais claras de gol.

O segundo motivo tem a ver com os estádios em si. Com o ‘boom imobiliário’ do futebol na época da Copa, pipocaram arenas ‘padrão Fifa’ pelo Brasil. Considerando casos como os de Flamengo, Atlético/MG e Sport que têm seus ‘próprios estádios’ mas às vezes escolhem um palco maior, dá pra dizer que, na média, metade das equipes que disputam a série A hoje mandam seus jogos em estádios novos ou recém-reformados.

Da Arena Grêmio, em Porto Alegre, à Fonte Nova, em Salvador, esses estádios compartilham fatores que ajudam seus visitantes a se sentirem mais à vontade para aprontar. Vestiários confortáveis (o que é ótimo), arquibancadas com cadeiras (o que é médio), ingressos caros (o que é péssimo), coisas que resultam em ambientes controlados e esterilizados. Distantes da pressão que estamos acostumados a ver em estádios mais acanhados que fizeram fama e fortuna por exercer uma pressão a mais nos adversários.

Vale dizer que tudo isso aplicado a um campeonato por pontos corridos é minimizado, já que o formato da disputa ajuda a atenuar discrepâncias e premia a regularidade. Mas o que dizer quando temos esse tipo de incongruência em competições eliminatórias que usam o fator mandante/visitante como o critério de desempate mais importante?

O gol qualificado fora de casa foi inventado em 1965 depois que um confronto válido pela Liga dos Campeões da Europa do ano anterior entre Liverpool/ING e Colonia/ALE terminou empatado em duplo 0 a 0. Por falta de criatividade dos responsáveis presentes, a vaga foi dada à equipe inglesa depois de um cara ou coroa — o que obviamente gerou muitas reclamações.

A partir daí, o tal critério foi criado e implementado na Europa na temporada seguinte na tentativa de incentivar os times visitantes a saírem um pouco da defesa em busca do tento que daria uma boa vantagem para a partida de volta. O que, segundo o relato de testemunhas oculares, de fato aconteceu.

O futebol, porém, evoluiu e quando o critério se popularizou aqui no Brasil, já no final da década de 1980, com a criação da Copa do Brasil, o contexto já era muito diferente: ao invés de incentivar os visitantes a jogarem no ataque, ele acabou fazendo com que os times mandantes ficassem mais cautelosos. Afinal de contas, se vencer por 1 a 0 é melhor do que 2 a 1, pra que continuar insistindo na busca do gol sob o risco de de se expor?

Da mesma forma, um empate em 0 a 0 na primeira partida, dá ao time local a prerrogativa da classificação com uma cartela de resultados muito maiores. A seu favor: qualquer vitória + qualquer empate com gols. Contra: qualquer derrota. Por que se expor ao risco de sofrer um gol se, mesmo jogando dentro de casa, empatar em 0 a 0 me dá mais opções de vitória que o time adversário no jogo de volta?

O critério criou distorções perceptíveis em confrontos eliminatórios em qualquer lugar do mundo. Depois de ser derrotado por 1 a 0 fora de casa, uma equipe que sofre um gol dentro de casa, agora se vê na obrigação de fazer três. Mesmo que ela tenha ensaiado uma reação e tomado um gol, digamos, só no segundo tempo, pode se ver, de repente, obrigada a correr atrás do resultado ‘do zero’ novamente. O que acontece na prática? Jogadores desestimulados e uma partida entediante.

A opção pelo gol qualificado fora de casa tem se mostrado tão ruim que as competições estão criando exceções para as finais. Assim, na Copa Libertadores ou na Copa do Brasil, por exemplo, o que vale para todas as fases anteriores não vale justamente na decisão. Ora, se os pênaltis não são justos o suficiente para decidir quem se classifica numa fase preliminar, por que são justos justamente na hora de decidir o campeão? Aberração.

Para tentar resolver essa questão, algumas opções já vem sendo discutidas há anos. A ala mais romântica — e um tanto quanto utópica — defende o critério à moda antiga: em caso de empate, seria necessário marcar uma terceira partida em campo neutro, parecido com o que acontece em esportes como basquete e vôlei. O que, por questões de calendário, seria simplesmente impraticável atualmente.

Uma outra alternativa menos radical, usa a mesma lógica do gol qualificado para apontar uma nova solução. Ao invés de classificar quem sofreu menos gols dentro de casa, o vencedor seria definido por quem marcou mais gols na sua respetiva vitória. Nesse caso, um time que perdeu por 2 a 0, mas venceu por 4 a 2, teria seu apetite ofensivo premiado já que foi capaz de marcar quatro gols numa única partida.

A solução, porém, também tem seus críticos que acabam defendendo a opção mais simples e instintiva: se é tão difícil estabelecer uma diferença justa entre times que terminam um confronto com a mesma quantidade de gols marcados e sofridos, então que nós forcemos eles a saírem dessa igualdade através da boa e velha disputa de pênaltis. Assim, independente dos placares parciais, qualquer confronto que terminasse empatado seria conduzido à marca da cal.

Sinceramente, essa hipótese me agrada. Ao meu ver, o jogo ganharia em emoção tanto no tempo corrido quanto nas cobranças de desempate. Afinal de contas, como vi um dia desses no Twitter: “quem gosta de sexo é jovem, adulto gosta mesmo é de uma boa disputa de pênaltis!”

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