15 Minutos de Engajamento
O Vírus da Polêmica, da Opinião Formada e do Posicionamento Acéfalo
Em 7 de Outubro de 2012, ao fim das eleições municipais do Rio, eu coloquei no Facebook: “E hoje começa minha contagem regressiva pra ver em quanto tempo ninguém fala mais nada do (Marcelo) Freixo.”
Não durou uma semana.
Em meados de 2013, era quase impossível conversar com alguém, em pessoa ou digitalmente, sem haver menção dos protestos da época. Tamanho engajamento político de virtualmente todo mundo com quem tive contato durante esse tempo era, para mim, inacreditável. A minha incredulidade foi justificada porque, como com todo assunto nesse país, a importância e o compromisso eram somente virais.
Como um resfriado comum, foi contagioso, intenso e rapidamente varrido para fora do sistema.
Pouco depois houve outro episódio político que apresentou imensa participação popular, o chamado resgate dos beagles do Instituto Royal. Mais uma vez, era praticamente impossível não se ver rodeado por discussões acerca do assunto.
Percebi que, assim como acontecera durante os protestos, o debate teve seu foco deslocado. Dessa vez, de ‘o instituto maltrata animais’ para ‘pesquisas com animais não são necessárias’ (os protestos começaram com mais lutas pelo passe livre estudantil, migraram para o aumento do preço da passagem de ônibus e o tema manteve-se em corrupção sistemática na administração do país).
Como de praxe, surgiram diversos experts em pesquisa científica, formados no minuto anterior por sua extensiva leitura sobre metodologia científica e os últimos avanços tecnológicos na área em qualquer blog de ativistas ignorantes. Outro engajamento não mais que viral.
Como a gripe, o empenho foi contagioso, intenso e foi, logo depois de curado, esquecido.
Diante de mais uma crise viral da população, dessa vez sobre a violência presente na cidade do Rio, e lembrando de tantos outros episódios—as eleições de 2012 para Prefeito do Rio, a Aldeia Maracanã e as obras no estádio, o rolezinho paulista, o beijo gay no fim da novela, a legalização do aborto de fetos anencéfalos, etc.—de comprometimento incondicional, absoluto e, acima de tudo, em curtíssimo prazo do brasileiro médio, é irracional não prever que, assim como todos os outros grandes debates, esse também não nos levará a lugar nenhum.
Outra semelhança que percebo entre tais eventos é que o brasileiro, salvo raras exceções, não adere às discussões em si, mas deliberadamente escolhe e se junta a um time. Tal seleção nunca é feita após a consideração dos argumentos apresentados, mas é baseada em algum tipo de sintonia emocional ou ideológica do indivíduo para com o grupo elegido. Isso gera um tipo de participação rasa e cega: Repetindo os pontos, dificilmente os argumentos, colocados pela equipe escolhida, o indivíduo se isenta de ser uma mente pensante e passa a ser mais uma voz berrante. Não é raro ver criaturas repetindo motes como “bandido bom é bandido morto”; “político brasileiro é tudo corrupto”; “a classe média não sabe como é”. O clássico popular “Maria-vai-com-as-outras”.
Assumindo seu papel de mais um na multidão atrás de uma bandeira claramente política e partidária, o sujeito se nega raciocínio e possibilidade de engrandecimento para ter a satisfação do posicionamento. Afinal de contas, muito mais importante do que o processo de se formar e reformar, é ter a tão desejada Opinião Formada. Colocar sua voz na babel, advogar uma causa para, no fim do dia, poder bradar: “Eu lutei por isso!”
O que é surpreendente, no entanto, é a prontidão do indivíduo em negar ser parte não-pensante de um grupo, e o repúdio e tentativa de vetar a participação de partidos políticos nas questões—como aconteceu durante os protestos de 2013. Mesmo sabendo que a participação de tais grupos é condição sine qua non para a própria participação, é comum o discurso hipócrita em defesa do apartidarismo.
Para agravar a conjuntura, como tais discussões têm incidência esporádica e caráter curto e deliberadamente uni-direcional (isto é, ambas as partes estão preparadas para apenas emitirem idéias, nunca dispostas à recepção delas), não estamos acostumados com o auto-questionamento nem com a busca por coerência e idéias melhores. Tal indagação espontânea surge com a experiência de estar errado e a ciência dessa possibilidade e, por causa da enorme resistência ao discurso do outro, a percepção do próprio erro (ou da possibilidade dele) se torna quase impossível. Essa ausência cultural de auto-dúvida é diretamente responsável pela incongruência intelectual vigente no país.
Tal ausência me parece ser reflexo e fruto da maneira que criamos e educamos nossas crianças. Temos o terrível costume de decidir, in utero, o time de futebol e religião dos nossos filhos, tirando completamente deles a liberdade e responsabilidade de escolha após exploração e avaliação das possibilidades. Acredito que enquanto isso estiver presente, as pessoas continuarão tomando decisões de todo tipo baseadas em comunidade e conforto, em vez de fundamentá-las em evidência e raciocínio.
Pensar é trabalhoso e desinteressante, o brasileiro gosta é de ter opinião.
Estou acostumado a ser chamado de chato e polêmico (só um eufemismo para ‘muito chato’, no vernáculo do brasileiro mediano). Eu admito não gostar de abandonar as conversas em que participo, e fico indignado com quem o faz com freqüência. Isso, imagino, se dá pela quase unânime e soberana apatia intelectual do povo brasileiro. No momento em que a discussão exige que o indivíduo pense, ele desiste—não por perceber que seu adversário não está disposto a um diálogo, o que seria perfeitamente compreensível, mas por incapacidade e indiferença.
Agora apelando um pouco para evidência anedótica, não conheço um brasileiro satisfeito com a situação do país e com a sua participação nele. Entretanto, conheço poucos que estão dispostos a fazer o que acreditam ser necessário para mudar tal(is) aspecto(s) de sua realidade; nosso conformismo e indolência são ímpares.
Brasileiros não buscam conclusões e soluções duradouras. No caminho, nos distraímos e convencemos que há coisas melhores a serem feitas do que insistir em algo imutável. Persuadimo-nos que a tenacidade não passa de perda de tempo e resignamos o posto de possíveis agentes de mudança. Isso é sistêmico e se apresenta em quase todos os assuntos vigentes, ainda que brevemente, na nossa cultura.
É difícil acreditar que um país feito por esse povo possa ser diferente.
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