Epicuro, o primeiro moderno

3 minutos de leitura sobre filosofia epicurista

Contrariamente a todos os religiosos e a muitos filósofos, Epicuro não acredita que Deus ou deuses influenciam a vida dos humanos, nem que haja alma imortal ou reencarnante; tampouco qualquer Destino pré-fixado que algum oráculo ou horóscopo possa prever, mesmo que alusivamente. Como na ciência moderna, no epicurismo há lugar para o acaso e para o caótico ao se entender a natureza física e biológica sem temê-la. Existe assim compatibilidade com o que hoje chamamos darwinismo — contrariamente a todo pensamento da Antiguidade — pois percorre-se um tempo sem repetição e não cíclico, pautado por acasos, como acreditam os cientistas contemporâneos.

Toda esta “modernidade” do epicurismo é possível quando se entende que tudo que somos e nos cerca são átomos turbilhonando, se agregando e desagregando ao acaso dos entrechoques, como poeiras sob um filete de sol, sem um Criador de qualquer Genesis ou Apocalipse, sem milagres de qualquer espécie. Que um meteoro caia na Antártida ou em Manhattan é mero acaso, obra de ninguém. Não há a quem rezar por proteção! Sem esta compreensão da natureza, não há como “desfrutar prazeres em sua pureza”, como dizia Epicuro.

Na Carta a Meneceu o filósofo enfatiza que “o Destino, introduzido por alguns filósofos como senhor de tudo, é uma crença vã” e que devemos acreditar que “algumas coisas acontecem necessariamente, outras por acaso e que outras dependem de nós”. Por exemplo a morte é necessária à natureza do ser vivo. Se sobrevêm à noite ou de dia, é puro acaso. Se ocorreu porque, sem dormir, guiamos na rodovia por horas a fio, dependeu de nosso cálculo incorreto de riscos.

O que “depende de nós’ está condicionado ao livre-arbítrio humano, à liberdade de escolhermos cada movimento empreendido, à possibilidade e responsabilidade humanas de empregar a racionalidade e a lógica que naturalmente dispomos (o lógos) — e que nos distingue dos demais animais — ao criar linguagens e raciocínios complexos.

O lógos nos permite pensar as consequências de cada ação por meio de antecipações de cenários possíveis. Epicuro salta assim 20 séculos e alcança as filosofias utilitaristas do séc. XVIII (Bentham, Mill), o pragmatismo dos sécs. XIX-XX, a começar por Peirce, e mesmo o existencialismo de Sartre.

Para Epicuro, o objetivo último das escolhas é “viver prazerosamente”, sem dores nem temores terrenos ou sobrenaturais, sem remorsos, culpas, perseguições, no melhor equilíbrio corporal e mental, mostrando amistosidade e amizade com todos que nos cercam. Podemos efetivamente aplicar a experiência passada ao futuro e escolher como agir diante de cada situação humana, buscando o bem individual e coletivo, muito além do mero instinto dos animais diante do prazer & dor, em seu eterno presente.

Epicuro colocou-se como missão ensinar uma filosofia que pudesse trazer felicidade legítima aos humanos. Tudo começa por um entendimento da natureza do mundo físico e biológico (physis, physiologia), de como tudo se produz, decai e se recicla. Afastam-se assim receios e erradicam-se temores supersticiosos sobre o que “pode e sobre o que não pode acontecer”. Por exemplo, eclipses e pestes apavoravam os Antigos, que não conheciam suas naturezas e não sabiam assim com que ações deviam pragmaticamente responder.

Conhecer a natureza significa conhecer o que podemos fazer diante do eclipse (nada, só curtir: não há o que temer) ou da peste (afastar-se dos empesteados e aglomerações, entender a biologia do contágio), ou seja, saber o que podemos mudar ou não no mundo, já que dispomos de lógos, livre-arbítrio e responsabilidade.

Oito séculos depois de Epicuro, o filósofo cristão Beócio (480–524 d.C.) buscava “aceitar o que não podemos mudar, coragem para mudar as coisas que podemos mudar e sabedoria para distinguir uma coisa da outra”. Isto poderia complementar a advertência de Epicuro a Meneceu:

Lembra-te que o futuro nem é nosso, nem completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá com certeza nem podemos abandonar a esperança nele com certeza que não virá.

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