Carta ao meu avô morto


© Rodrigo Bressane

A última vez que te olhei, foi ali, naquele caixão. Minhas lágrimas, miseráveis, não vieram. Provavelmente acompanhavam a tristeza, que também não deu as caras. Algo me consolava. “Deus”, um desavisado poderia me sugerir, por não me saber que, ao consolo divino, prefiro consolo nenhum.

O que me confortou, foi a memória. A lembrança da vida. E o fato de que, 90 anos, vamos combinar, é tempo de sobra. Não dá pra reclamar. Você viveu muito, vô. Dava pra viver mais? Claro. Sempre dá. Mas 90 é lucro em qualquer lugar. Vazou no crédito. Não dá pra reclamar.

Ainda assim, saudade. Muita. Mas não vou falar disso agora. Fica para uma outra carta. Quem sabe quando faltar assunto. Por enquanto, deixe eu explicar as minhas intenções.

Ultimamente, sinto que preciso começar a desabafar algumas coisas. Abrir meu coração com alguém, sabe? Não vou me confessar, não é isso. Mas quero conversar. Bater um papo franco. Falar, falar e falar. E é aí que você entra.

Te escolhi por duas razões. Primeiro porque nos compreendemos. Temos afinidades. Você é meu avô, poxa. Me viu nascer. Me viu pelado. Conheceu meu pinto em seu menor exemplar — e não mudou muita coisa. Me levou pra praia. Me comprou uma pipa. Me ensinou coisas importantes sobre a vida. Algumas eu fiz questão de esquecer. Suas cismas com certas minorias, estão totalmente fora de moda hoje em dia.

A segunda razão pela qual te escrevo é simples. O senhor está morto. Mortinho da Silva. Isso facilita muito as coisas. Como sabe, carrego uma boa dose de covardice quando o assunto é receber críticas de qualquer tamanho, forma ou sabor. Com a sua morada permanente no Bosque da Esperança, estou seguro de que me ouvirá com atenção e, para minha tranquilidade plena, jamais me responderá.

Espero que não se incomode com as minhas cartas. Pretendo que sejam muitas, mas curtas e objetivas. Tenho um bocado de coisas pra dizer. E finalmente me dei conta de que existe alguém capaz de ouvir. E nunca julgar. Até breve.

Seu neto,
Rodrigo


Originally published at madmimi.com.

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