Desencapetando as desgraceiras da vida

No consultório dental a simpática Dra. Carol faz sua série de perguntas de praxe para o meu prontuário. Do meu histórico médico às preferências alimentares. “Alergias? Doenças pulmonares? Dores nas pernas, no peito, na alma, traumas de infância (essas duas últimas saíram da minha cabeça)?

Foi quando veio, com aquela voz em câmera lenta, a famigerada questão sem verbo: “e bebida alcóolica”? Pensei em levantar e correr para as montanhas. Ao invés, respondi que bebo — pela primeira vez diante de uma autoridade competente. Ela tentou me ajudar, sugerindo o escape tradicional do “socialmente, né? Não é todo dia, né?”. Mas era. Todo dia.

Há um bom tempo eu assisto às minhas fichas desmoronando pela via pública e finjo não percebê-las caindo. Sei que algumas coisas precisam mudar. E quando eu digo “algumas”, quero dizer “muitas”. E quando eu digo “muitas”, provavelmente deveria ter dito “quase todas”.

© Rodrigo Bressane

Embora minha percepção dos fatos esteja claramente nublada pela confusão mental vigente, o resto de sanidade me permite perceber com alguma clareza que a situação não é das melhores.

Vamos a uma seleção light de sintomas. Durmo pouco, me alimento mal, acordo errado, bebo além da conta, perco tempo infinito com inutilidades, não leio o quanto deveria, falo demais, ouço de menos, trabalho muito, produzo pouco, procrastino like a boss, não dedico tempo à família, pratico anti-atividade física desde que me entendo por gente, estou engordando ad æternum, tenho cada vez menos controle das minhas finanças e por aí vai.

Antes de picar a mula, em 2005, Steve Jobs deu uma famosa palestra de formatura na Universidade de Stanford. Num dos trechos ele disse o seguinte:

Pelos últimos 33 anos, olhei no espelho todas as manhãs e me perguntei: ‘se hoje fosse o último dia da minha vida, será que eu gostaria de fazer o que estou para fazer hoje?’ Sempre que a resposta era “não” por muitos dias seguidos, eu sabia que precisava mudar alguma coisa.

E completou com a dedução perfeita:

Lembrar que estarei morto logo é a ferramenta mais importante que eu encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões na vida.

Essa lembrança, de que estarei morto mais cedo ou mais tarde, tem me acompanhado mais que a sombra nos últimos anos. Embora não faça o jogo do espelho — e provavelmente devesse — percebo que o tempo está acabando e, à beira dos 40, sinto-me completamente perdido na festa. Não sei como entrei, não faço ideia de como aproveitar e sair dela mais cedo não me parece uma ideia tão ruim.

Mas festa é festa e, em algum lugar, deve haver ao menos uma boa conversa me esperando. É por isso que, encerrado o bloco das lamentações, decidi contar o que pretendo fazer para melhorar a coisa.

© Rodrigo Bressane

Sempre leio artigos de pessoas que conseguiram recuperar as rédeas da própria vida e listam, depois do sucesso, os passos que tomaram. O meu vai ser ao contrário, ou seja, com 100% de chance de dar errado. Mesmo assim, vamos ao plano.

Matando as distrações

Em mim, um dos efeitos colaterais de observar a ampulheta da vida ultrapassando a metade do caminho é a constante sensação de tempo perdido. É como se cada minuto gasto fosse acompanhando de um frame da mulher encapuzada de foice na mão. Para piorar, minha não-rotina inclui uma série de atividades que servem para absolutamente nada, exceto gerar mais frustrações. É por isso que, a partir de agora, em passos práticos, resolvo o seguinte:

  • Sem telefone pela manhã. Vai ficar em modo avião até a hora do almoço. Com chance de continuar pelo resto do dia. Fica a meu critério. A partir de hoje eu sou o “Mestre do Telefone”.
  • Telefone em modo “não perturbe” indefinidamente. Eu não nasci pra ter telefone. Não ligo para as pessoas e não gosto quando elas me ligam. Quem quer falar comigo dá um jeito quase sempre. E quando não dá, normalmente é melhor assim.
  • Sem e-mails pela manhã. Isso não é novidade no mundo dos gurus da produtividade. A maioria recomenda só dar bola pro correio eletrônico (expressão de 1995) depois do almoço e em momentos específicos durante o dia. É o que farei.
  • Notificações desligadas. Esses alertas são a voz do capeta, o sopro de Satanás. Cada “plim”, “pong”, “bing” é um lembrete de que tem alguém fungando na sua cacunda (no caso, a minha).
  • Fim dos apps sugadores de vida. Sou viciado em comprar aplicativos. Compro tudo. Precisando ou não. Ironicamente acabo usando, principalmente, os que não servem pra nada. Acabou. Apagando tudo que não presta a partir de hoje.
  • Comprar mais um app. Calma. Antes de me julgar pelo conflito de interesses com o item anterior, este novo app é pra me ajudar a focar. Ainda não sei qual, mas quando encontrar conto pra todo mundo.

Operação “Anti-SUS”

A saúde é um dos pontos mais abandonados da minha existência. Estou vivo porque, até então, vai dando tudo certo no piloto automático. Mas evito ir ao médico justamente para não descobrir alguma praga. De qualquer forma, antes de conhecer meu verdadeiro estado, é hora de mexer alguns palitos. Estes são os pontos mais difíceis pra mim. Mas vou tentar.

  • Dormir cedo. Todos os dias, só consigo desligar depois das duas da manhã. Sem excessão. E na base de remédio. É assim, ou não durmo. Vou tentar mudar. Não vou conseguir. Mas vou tentar.
  • Ir pra cama sem iPad, iPhone, Kindle, torradeira, qualquer coisa que ligue na tomada. Isso é fundamental. Eu sei. Sem isso não tem como dormir direito. Eu sei também. Vai ser moleza? Não vai. Acho que vai ser impossível. Mas vale como item da lista.
  • Acordar cedo. Finalmente um item que eu já dominei. Não que eu acorde com as galinhas, mas faz um tempo que às 7h30 eu já começo a limpar as remelas. Epic win nesse aqui.
  • Ao menos 30 minutos de caminhada por dia. Mesmo que seja pra ir trabalhar e voltar. Preciso mexer as pernas antes que elas esqueçam como funcionam.
  • Melhorar a alimentação. Isso não é tão difícil. Vou dar um jeito. Preciso de uma dieta. Aceito sugestões.
  • Controlar a bebedeira. Não vou assumir, agora, o compromisso de parar. Até acho que consigo, mas provavelmente vou escorregar e isso vai me deixar hashtag chateado.

Saúde mental

Duas coisas fazem muito bem pra minha cabeça. Ler e escrever. Tenho negligenciado as duas, especialmente a última. Terminar este artigo, por exemplo, me dá uma satisfação enorme. Me deixa melhor durante o dia. Me dá umas duas horas extras de energia e disposição. A leitura sempre acontece, mas não está em forma. Ano passado li pouco menos de 30 livros. Este ano quero 60.

  • Ler uma hora por dia. Consigo até mais, mas a regularidade é o problema.
  • Escrever todos os dias. Meu sonho é este. Escrever de tudo. Mesmo que seja só texto tosco, sem sentido, sem propósito. O importante é ter começo, meio e fim.
  • Assistir mais filmes e séries. Por incrível que pareça, o que é problema pra muita gente (exagerar no Netflix, por exemplo) tem me feito falta. É tanta coisa durante o dia que não gasto tempo suficiente descansando a caixola.
  • Mais tempo com a família. Ou, melhor dizendo, tempo com a família. Se meus filhos fossem meus chefes eu já teria sido demitido por justa causa.

Sei que é pouco, mas é um começo. Escrever tudo isto me ajuda a olhar para os problemas nos olhos. Vamos ver quem ganha o jogo de encarar.