À procura
Por Daniela Matthes
Ela chegou ao balcão e bateu a caneca contra o vidro para avisar que já estava ali. Era de plástico, de um branco amarelado capaz de provocar desconfiança quanto à segurança de desfrutar goles do que estivesse dentro dela. Conhecida por suas extravagâncias, conteve-se. Uma das atendentes da padaria pediu que Maria esperasse, outros clientes estavam na frente. E assim o fez, diferente do seu habitual modus operandi da época.
O dia tinha clima ameno, lembro bem, mesmo que isso já tenha se passado há alguns anos. Apesar do termômetro estar longe dos 30 ºC, ainda não se justificavam os pedaços de lã que lhe cobriam a cabeça. Toda vez que a encontrava na rua, estava coberta com suas lãs e o guarda-chuva aberto. Blusa manga longa e calças eram praxe. Independente se o frio e a chuva eram companhias do dia. Sentava no ponto de ônibus em frente à Furb. Ninguém sabe dizer se passava horas ou dias lá. O dia amanhecia, escurecia e ela continuava por ali, numa eterna espera. Às vezes caminhava, embarcava em ônibus qualquer.
Já tive de pular do banco no coletivo sob suas ordens evocadas com o guarda-chuva em riste. Desferia instruções e ameaçava com a arma apontada, pronta a ser aberta na cara de quem não obedecesse. Não lembro bem o que disse para me fazer liberar o espaço para que sentasse, só que a voz alta e estridente, fala chiada e a mira em minha direção foram argumentos suficientes para me convencer.
Tornou-se anedota, figura conhecida. Ganhou apelido pejorativo. Ninguém sabe ao certo como apareceu na rua, nem quando sumiu. Às vezes quieta, às vezes esbravejava ao ar. Nunca compreendida. Caminhava pela cidade por que ou atrás do quê, não se sabe. Supus que vagava em busca de si, de alguma ajuda para se encontrar. Só esbarrou em risadinhas, provocações de adolescentes e quem atravessasse a rua quando lhe via. Por baixo daqueles panos estava alguém que era capaz de portar-se como uma pessoa _ que se convencionou _ normal. Paciente, esperou em pé que a fila de esfomeados em busca de pão com bolinho e mostarda escura esvaziasse. Chegou quando meu horário de almoço já estava corroído.
Um cliente ou outro a olhavam de soslaio. Evitavam chegar perto. Distraída, ela fitava cucas, roscas, sonhos, massinhas e os bolos expostos no balcão. Quando a padaria esvaziou, molharam a caneca e encheram de café com leite. O que vai querer, Maria? O mesmo que os outros. Agarrou o pacote marrom, largou uma moeda no balcão. Matou a fome em outro lugar. Foi a última vez que a vi. Espero que tenha encontrado dentro de si a Maria que parecia procurar.