Balão

por Sarita Gianesini

Na minha coleção de memórias, uma das mais antigas é de uma noite de inverno. Havia alguma festa de igreja no bairro. Não deveria ter mais que quatro anos e meu pai estava me segurando no colo. Era frio e o céu marinho quase negro estava salpicado de pontos brilhantes. Hipnotizada, seguia com os olhos um balão de gás hélio que acabara de perder. Para além da tristeza da perda do brinquedo novo, sentia um fascínio. Como podia? Aquele balão sozinho ir tão alto lá no céu? Onde ele iria parar? Na lua? E se esbarrasse num avião?

Só relaxei a vista quando o pontinho prateado sumiu por completo na imensidão. Mas o encantamento ainda está aqui dentro em algum lugar. A alegria de aproveitar algo bonito e tão simples. E presente. Que só é possível no agora. Tudo só é possível no agora. E parar pra pensar nisso pode ser enlouquecedor. Experimente ter como meta diária manter o foco no momento. Tente fazer isso numa realidade que contradiz todas as suas expectativas passadas e que não te dá nenhuma pista de conexão entre o que já passou, o agora e o que vai vir. É sufocante.

O presente é um balão cheio de gás. Está solto no céu. Agora. Subindo. Indo embora. Então não adianta catar um barbante imaginário e amarrar a bexiga cheia do mais nobre dos gases. Porque ao fazer isso, a gente desperdiça a chance de apreciar a jornada e fica só com uma cordinha ilusória, segurando algo que nem está ali de verdade. Sou dessas que dá quilômetros de corda para o balão. Nessa onda, gastei horas pensando no que eu poderia ter feito ou no que faria para manter meu olhar no momento.

Ri-dí-cu-lo. Então, sábado, entendi. Cheguei em casa do trabalho antes das 23h. A raridade de todas as flatmates em casa. Bruschetta, risotto, sauvignon blanc. Jantei, bebi uma taça de vinho e fui pro banho pensando na obrigação de escrever, no trabalho no dia seguinte, na lista mental de coisas que preciso responder para mim mesma. E aí, ouvindo a música e as risadas vindas da sala de estar, o momento illuminati. Carpe diem. Tenho o dobro da idade de uma pessoa que teria autorização para dizer isso sem o peso na consciência de parecer tola demais. Dane-se. Insisto. Carpe diem.

Do banho, desisti do computador. Catei meu caderno novo e decidi que era hora de rabiscar. Uma frase lembrete para marcar o momento e estrear o novo bloco. Voltei para a sala. Mais sauvignon blanc, conversa, Sinatra, gargalhadas, cantoria, Cazuza, sambando Chico Buarque. Construção. E flutuou no ar como se fosse sábado. E a ressaca infinita no domingo. Não havia opção a não ser vivê-la. O cérebro em slow motion não deixando alternativa a não ser se concentrar no agora para não misturar idiomas e conter o estômago em ebulição. E tudo isso, sorrindo durante o serviço. É melhor ser alegre que ser triste. Mesmo sem motivo. Balão sem barbante.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Breve Olhar’s story.